Archive for the ‘LITERATURA’ Category

UM PEDIDO DE DESCULPAS

Durante um debate mais aceso num portal da Internet, o meu opositor chamou-me “cavalo”. Num impulso irreprimível mas insensato, mandei o meu opositor para a puta que o pariu.
Arrependi-me. E, logo a seguir, mandei-lhe um pedido de desculpas. Fervoroso e sincero.
A humildade fica sempre bem…

Falta dizer que “João Dias” é um pseudónimo.

«Caro João Dias:

Decisiva e definitivamente, não falamos a mesma linguagem. O que é natural, pois sendo o caro João Dias de Lisboa e eu do Porto, as palavras adquirem significados diferentes. Só para exemplo, vocês dizem “fila” onde nós dizemos “bicha”, e vocês dizem “bicha” onde nós dizemos “paneleiro”.

Daí a desagradável confusão, com o João Dias a chamar-me “cavalo” – que, ao que parece, é um elogio – e eu a mandá-lo para a “puta que o pariu”. Espero que não tenha ido… pelo menos até que o problema da diferenciação linguística esteja esclarecido, o que me proponho fazer já e aqui. Depois, o caro João Dias decidirá.

Antes de mais, permita que o trate por JD; além de ser mais cómodo, sempre se poupam uns pixels. Além disso, sempre achei curiosos os diminutivos. Havia, no Porto, um rapaz muito popular, que morava na zona da Sé. Chamava-se Carlos, era um rapagão, aquilo que se chama “um calmeirão”, mas toda a gente lhe chamava “Carlinhos da Sé”, provavelmente por usar, sempre, um florido avental.

Mas isso não vem ao caso. Voltemos, então à “puta que o pariu”.

Não sei se alguma vez veio ao Porto. Admito que sim, já que pela sua verve o JD mostra ser um indivíduo com cultura acima da média – nada que se compare à arraia miúda que prolifera pelo DA. Imagino-o, até, a tomar o seu chá com o dedo mindinho espetado, como as pessoas finas.

Pois se veio ao Porto, provavelmente deliciou-se com o desenho de Nazoni na Torre dos Clérigos, com a elegância de ferro da Ponte D. Maria ou com a assinatura de Seyrig na Ponte Luis I. É verdade, meu caro: a ponte que muitos atribuem a Eiffel é, na verdade, um projecto do seu discípulo Teophile Seyrig. Mas, e também provavelmente, não entrou no chamado Porto profundo. Não tropeçou nas seringas na Rua dos Pelames, não pisou merda na Rua da Bainharia, não cheirou as tripas enfarinhadas no Mercado do Bolhão. Porque, meu caro: vós, os lisboetas, tendes os coiratos; nós os tripeiros, temos as idiossincrasias – seja lá isso o que for, mas que fica sempre bem num texto como este (eu ia escrever “idiota”, e o corrector automático sugeriu “idiossincrasia”, vai daí eu aproveitei). Se o tivesse feito, saberia que um envio à “puta que o pariu” pode ser um endereçamento não só carinhoso como, também – e principalmente! um desejo de muita felicidade.

Eu explico, se me permite: mandar um amigo para a “puta que o pariu” pode significar, em linguagem católica, algo como “quando morreres, que vás para junto de Deus-Pai Todo-Poderoso, te sentes à Sua direita, na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo, cercado por anjos, arcanjos, serafins e querubins, e que fiques, pelo resto dos teus dias, a escutar melodias celestiais”; claro que numa linguagem ateia, o estilo será diferente, mas a intenção, essa, permanece. Poderíamos traduzir por “desejo que te saia um colhão de dinheiro num obsceno ‘jackpot’ do Euromilhões, e que tenhas uma bruta vivenda com uma piscina onde possa caber não um, mas dois ‘Titanic’, que a tua mulher nunca te ponha os cornos, e que tenhas um par de filhos ateus até à medula” embora, conforme os gostos, os ‘Titanic’ possam ser substituídos por ‘Queen Mary II’.

A diferença, caro JD, está no tom em que se diz – e aí sim, um ouvido treinado e atento distingue entre o insulto e a blandícia. O que, diga-se em abono da verdade, está reservado, apenas, a alguns eleitos. Se dissermos, JD, vá para a “puta que o pariu” em tom agreste, estamos perante uma agressão, sem sombra de dúvidas; mas se a frase for pronunciada tipo “que sol tão quentinho”, ou “o mar está tão calmo!”, então estamos perante uma manifestação de amizade.

Claro que o caro JD julga que não tem como saber se a minha frase foi pronunciada com brandura ou com raiva; mas tem. É que, na escrita, se a frase vá para a “puta que o pariu” for escrita em letras maiúsculas, é uma expressão violenta. Ora, eu tive o cuidado de verificar que a minha frase foi escrita, propositadamente, esclareça-se, com letra minúscula. Está esclarecido?

Claro que não saio daqui sem culpas. É imperdoável a ofensa que cometi, quando pus na praça pública uma cena abjecta de uma criança da catequese e um padre, mais uma cena de um supositório renitente – e do facto peço, humilde e publicamente, desculpa. Sei que essa denúncia o irritou profundamente, ao ponto de escrever javardices que, em condições normais, era incapaz de dizer. Claro que não é nada que o Director Espiritual não possa resolver, e que umas horas de cilício não apaguem. E eu, confesso francamente, também fico irritado quando ouço algumas verdades a meu respeito – que eu não sou nenhum santo! Enfim. O que lá vai lá vai, o passado morreu, são coisas da intimidade de cada um, que não devem ser tornadas públicas. As minhas desculpas, mais uma vez.

Finalmente, vamos esquecer o cavalo, os coices, e o JD não vá, por favor, para a “puta que o pariu”. Caso tenha ido, regresse imediatamente, para que possamos restabelecer a paz e a harmonia que sempre reinaram entre nós. Porque, meu caro senhor: eu mandei o “João Dias” para a “puta que o pariu”; a pessoa a quem estas letras se dirigem NÃO SE CHAMA João Dias. Não tem que se sentir ofendido.

Pelo que pode, se quiser, voltar para lá.

O João Dias, claro.

Fraternalmente,

José Moreira»

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UM PEDIDO DE DESCULPAS

Durante um debate mais aceso num portal da Internet, o meu opositor chamou-me “cavalo”. Num impulso irreprimível mas insensato, mandei o meu opositor para a puta que o pariu.
Arrependi-me. E, logo a seguir, mandei-lhe um pedido de desculpas. Fervoroso e sincero.
A humildade fica sempre bem…

Falta dizer que “João Dias” é um pseudónimo.

«Caro João Dias:

Decisiva e definitivamente, não falamos a mesma linguagem. O que é natural, pois sendo o caro João Dias de Lisboa e eu do Porto, as palavras adquirem significados diferentes. Só para exemplo, vocês dizem “fila” onde nós dizemos “bicha”, e vocês dizem “bicha” onde nós dizemos “paneleiro”.

Daí a desagradável confusão, com o João Dias a chamar-me “cavalo” – que, ao que parece, é um elogio – e eu a mandá-lo para a “puta que o pariu”. Espero que não tenha ido… pelo menos até que o problema da diferenciação linguística esteja esclarecido, o que me proponho fazer já e aqui. Depois, o caro João Dias decidirá.

Antes de mais, permita que o trate por JD; além de ser mais cómodo, sempre se poupam uns pixels. Além disso, sempre achei curiosos os diminutivos. Havia, no Porto, um rapaz muito popular, que morava na zona da Sé. Chamava-se Carlos, era um rapagão, aquilo que se chama “um calmeirão”, mas toda a gente lhe chamava “Carlinhos da Sé”, provavelmente por usar, sempre, um florido avental.

Mas isso não vem ao caso. Voltemos, então à “puta que o pariu”.

Não sei se alguma vez veio ao Porto. Admito que sim, já que pela sua verve o JD mostra ser um indivíduo com cultura acima da média – nada que se compare à arraia miúda que prolifera pelo DA. Imagino-o, até, a tomar o seu chá com o dedo mindinho espetado, como as pessoas finas.

Pois se veio ao Porto, provavelmente deliciou-se com o desenho de Nazoni na Torre dos Clérigos, com a elegância de ferro da Ponte D. Maria ou com a assinatura de Seyrig na Ponte Luis I. É verdade, meu caro: a ponte que muitos atribuem a Eiffel é, na verdade, um projecto do seu discípulo Teophile Seyrig. Mas, e também provavelmente, não entrou no chamado Porto profundo. Não tropeçou nas seringas na Rua dos Pelames, não pisou merda na Rua da Bainharia, não cheirou as tripas enfarinhadas no Mercado do Bolhão. Porque, meu caro: vós, os lisboetas, tendes os coiratos; nós os tripeiros, temos as idiossincrasias – seja lá isso o que for, mas que fica sempre bem num texto como este (eu ia escrever “idiota”, e o corrector automático sugeriu “idiossincrasia”, vai daí eu aproveitei). Se o tivesse feito, saberia que um envio à “puta que o pariu” pode ser um endereçamento não só carinhoso como, também – e principalmente! um desejo de muita felicidade.

Eu explico, se me permite: mandar um amigo para a “puta que o pariu” pode significar, em linguagem católica, algo como “quando morreres, que vás para junto de Deus-Pai Todo-Poderoso, te sentes à Sua direita, na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo, cercado por anjos, arcanjos, serafins e querubins, e que fiques, pelo resto dos teus dias, a escutar melodias celestiais”; claro que numa linguagem ateia, o estilo será diferente, mas a intenção, essa, permanece. Poderíamos traduzir por “desejo que te saia um colhão de dinheiro num obsceno ‘jackpot’ do Euromilhões, e que tenhas uma bruta vivenda com uma piscina onde possa caber não um, mas dois ‘Titanic’, que a tua mulher nunca te ponha os cornos, e que tenhas um par de filhos ateus até à medula” embora, conforme os gostos, os ‘Titanic’ possam ser substituídos por ‘Queen Mary II’.

A diferença, caro JD, está no tom em que se diz – e aí sim, um ouvido treinado e atento distingue entre o insulto e a blandícia. O que, diga-se em abono da verdade, está reservado, apenas, a alguns eleitos. Se dissermos, JD, vá para a “puta que o pariu” em tom agreste, estamos perante uma agressão, sem sombra de dúvidas; mas se a frase for pronunciada tipo “que sol tão quentinho”, ou “o mar está tão calmo!”, então estamos perante uma manifestação de amizade.

Claro que o caro JD julga que não tem como saber se a minha frase foi pronunciada com brandura ou com raiva; mas tem. É que, na escrita, se a frase vá para a “puta que o pariu” for escrita em letras maiúsculas, é uma expressão violenta. Ora, eu tive o cuidado de verificar que a minha frase foi escrita, propositadamente, esclareça-se, com letra minúscula. Está esclarecido?

Claro que não saio daqui sem culpas. É imperdoável a ofensa que cometi, quando pus na praça pública uma cena abjecta de uma criança da catequese e um padre, mais uma cena de um supositório renitente – e do facto peço, humilde e publicamente, desculpa. Sei que essa denúncia o irritou profundamente, ao ponto de escrever javardices que, em condições normais, era incapaz de dizer. Claro que não é nada que o Director Espiritual não possa resolver, e que umas horas de cilício não apaguem. E eu, confesso francamente, também fico irritado quando ouço algumas verdades a meu respeito – que eu não sou nenhum santo! Enfim. O que lá vai lá vai, o passado morreu, são coisas da intimidade de cada um, que não devem ser tornadas públicas. As minhas desculpas, mais uma vez.

Finalmente, vamos esquecer o cavalo, os coices, e o JD não vá, por favor, para a “puta que o pariu”. Caso tenha ido, regresse imediatamente, para que possamos restabelecer a paz e a harmonia que sempre reinaram entre nós. Porque, meu caro senhor: eu mandei o “João Dias” para a “puta que o pariu”; a pessoa a quem estas letras se dirigem NÃO SE CHAMA João Dias. Não tem que se sentir ofendido.

Pelo que pode, se quiser, voltar para lá.

O João Dias, claro.

Fraternalmente,

José Moreira»