Archive for the ‘Não classificado’ Category

O Natal dos cínicos

É Natal. Por norma, é época de caridade. Que se cumpre, diga-se de passagem. Porque a solidariedade não tem épocas

De facto, em tudo quanto é televisão, multiplicam-se organizações, na razão directa do número de holofotes e câmaras. Não se multiplicam, amontoam-se, colocando-se em bicos de pés, só lhes faltando o célebre letreiro “Mãe, estou aqui”. E são ceias natalícias, e são cobertores… E são reportagens televisivas acerca do assunto, sempre que possível ao vivo e a cores.

E eu pergunto: onde andam, os pobres, durante os restantes onze meses do ano, que ninguém os vê? Será que só têm fome e frio em Dezembro? Será que são pobres “sazonais”? De que se alimentam, entre Janeiro e Novembro, que a comunicação social pouco ou nada refere e, como dizia uma excelente jornalista, que faz o favor de ser minha amiga, “se não há notícia, não aconteceu”? Onde andam as caridosas organizações?

Claro que há excepções. Há instituições que, na dignidade do silêncio, acorrem aos mais desfavorecidos durante TODOS os dias do ano. Mas essas não aparecem nas parangonas de Dezembro. Porque não praticam a caridade, mas sim a digna solidariedade. Porque a solidariedade pratica-se na humildade discreta; a caridade necessita – sempre necessitou – de publicidade.

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POUPEMOS PAPEL


Todos os dias somos aconselhados a poupar no uso do papel. Parece que é preciso deitar árvores abaixo para fabricar papel, e a floresta é um bem precioso, que é urgente preservar. Coisa linda, a floresta! Mas a verdade é que, ao que parece, há árvores que são plantadas de propósito para fabricar papel. É o caso dos eucaliptos, e não é por mero acaso que Portugal se transformou num imenso eucaliptal. Essas árvores foram plantadas para produzir pasta de papel.

No entanto, ninguém faz apelo a que se arranje outro material para construis mobiliário. Que, por acaso, também é feito em madeira. E não me consta que alguém tenha mandado plantar árvores – nogueira, mogno, castanheiro, por exemplo – para produzir móveis. Há algo que me está a escapar… Então, não se pode derrubar florestas de árvores para produzir papel, e pode-se destruir florestas de árvores que NÃO são destinadas ao mobiliário?

Bom, adiante. Há dias fui assediado por duas empresas no sentido de aderir à factura electrónica. Coisa linda, a factura electrónica: poupa-se no papel, poupa-se nas arvorezinhas, coitadinhas, e o ambiente agradece. E os accionistas também. Perguntei à aliás simpática senhora, uma de cada empresa, tá-se a ver, o que é que eu ganhava com isso. Nada, responderam as senhoras – uma de cada vez, claro. Mas ganha o ambiente.

Vamos fazer contas devagarinho, que eu sou uma merda em matemática: se, entre papel A4, envelope, tinta de impressora e selo de correio a empresa gastar, e estou a nivelar por baixo, cinquenta cêntimos, nem me aquece nem arrefece, ao fim do mês. Mas esses cinquenta cêntimos a multiplicar, e ainda a nivelar por baixo, por um milhão de consumidores, vai dar quinhentos mil euros. Que vão encher os bolsos dos accionistas, como acima disse.

Eu até era capaz de aderir, se me garantissem que esses quinhentos mil euros eram entregues a instituições de solidariedade social. Mas não me consta que seja esse o caso. Não há almoços grátis, está provado.

Vai daí, mandei-os à merda. E eles continuam a mandar a factura em papel. Pelo menos, evito o despedimento dos funcionários encarregados de lamber os envelopes. O que já é uma boa causa.

O PAPA VEM A PORTUGAL

À Comunicação Social

Com a devida vénia, transcrevo um comunicado da Associação Ateísta Portuguesa acerca do assunto em epígrafe.

Comunicado sobre a vinda do Papa a Fátima

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) respeita, e defende, a liberdade de crença de todos os religiosos, não se opondo à visita de qualquer líder religioso enquanto tal. Mas é preocupante que a visita de Bento XVI a Fátima, em Maio de 2010, seja palco de manobras políticas, com a cumplicidade do Estado, violando a laicidade a que este é obrigado e desrespeitando crentes e não crentes.

A visita de um papa católico é assunto da Igreja católica e não matéria do Estado português. Num Estado laico o Papa é apenas um líder religioso. Que o cidadão Cavaco Silva se regozije é um direito; que o chefe de Estado de um País laico exulte com a visita do seu líder espiritual é uma interferência nefasta da política na religião, e vice-versa; e que essa visita tenha sido anunciada fora de tempo, contra a vontade da própria Conferência Episcopal, é uma politização inadmissível daquilo que é apenas matéria de crença pessoal.

Fátima é um dos santuários mais importantes e rentáveis da Igreja católica. Estes aspectos de fé e gestão religiosa justificam a visita do Papa, mas é lamentável que esta deslocação seja considerada – como disse o bispo Carlos Azevedo – «uma visita de profundo significado, também por ser o centenário da implantação da República». Fátima foi um instrumento da propaganda contra a República e contra o socialismo. Os milagres tentados noutros locais do país acabaram adjudicados numa região onde a religiosidade e o analfabetismo os facilitava. E, hoje, a crença nas piruetas do Sol, passeios da Virgem pelas azinheiras e aterragem de anjos na Cova da Iria são uma opção pessoal, motivada pela fé e não por provas objectivas, e sem qualquer relação com a nossa forma actual de governo.

Associar a visita do Papa ao Centenário da República é uma afronta à nossa democracia, que historicamente foi implantada, e muitas vezes defendida, contra a vontade da Igreja Católica. Viola também a neutralidade a que o Estado é obrigado em matéria de fé, imiscuindo-se um órgão de soberania em algo que é estritamente do foro pessoal de cada cidadão. E, finalmente, atenta contra a liberdade de crença e não crença de cada um, ao envolver os nossos dirigentes, e a própria República, na ligação a uma religião em particular.

A AAP não pode deixar de repudiar a associação do Estado português à visita de um líder religioso e o seu aproveitamento político numa tentativa de manipular a nossa democracia.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 25 de Setembro de 2009

Carlos Esperança

(Presidente da Direcção)



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PAGAR, OU NÃO PAGAR?

Com a devida vénia, transcrevo uma mensagem electrónica que acabo de receber.



Exmos. Senhores Directores dos órgãos da Comunicação Social


A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) solicita a vossa amável colaboração para dar voz às nossas profundas inquietações com a deriva beata das instituições do Estado e o proselitismo agressivo das Igrejas, nomeadamente da católica, por intermédio de um episcopado que lembra o de outros tempos.


Apresento-lhes os meus melhores cumprimentos.


Carlos esperança



À comunicação social:

COMUNICADO

Qualquer doente, recluso ou militar tem o direito de acesso aos ministros do culto da sua religião, um direito do qual ninguém deve ser privado. No entanto, a prestação de serviços religiosos não é da competência do Estado. Por isso, se por um lado a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) reconhece a todos os crentes o direito à assistência espiritual, por outro repudia o recurso ao erário para financiar este serviço. A remuneração dos sacerdotes que visitem doentes, reclusos ou elementos das forças de segurança deve ficar a cargo das organizações religiosas e dos seus fiéis. A liberdade religiosa deve reconhecer a todos tanto o direito à sua religião como o direito de não pagar dos seus impostos a religião dos outros.

O acordo da passada segunda-feira entre o Estado e a Igreja Católica, ao contemplar a contratação de sacerdotes como prestadores de serviços ao Estado, é contrário ao espírito da liberdade religiosa. Não apenas por usar o erário que é de todos, crentes e não crentes, para pagar a alguns representantes de algumas religiões, mas também por obrigar o Estado a contratar cidadãos discriminando-os pela sua religião, discriminação esta que a própria Constituição proíbe.

E é uma medida desnecessária. Para respeitar a liberdade religiosa de reclusos, pacientes internados ou militares basta que o Estado permita visitas regulares por parte de qualquer sacerdote religioso a pedido dos interessados. Desta forma ninguém fica privado de acesso aos ministros do seu culto religioso, sem o constrangimento de ter de recusar serviços que não solicitou, em situação particularmente debilitada, no caso de reclusos e doentes.

Porque a remuneração pública de sacerdotes não é um requisito da liberdade religiosa, e porque é contrário a esta liberdade obrigar cada contribuinte a financiar religiões nas quais não crê e obrigar o Estado a contratar serviços discriminando os candidatos de acordo com a sua religião, a AAP (opõe-se a) repudia qualquer acordo que comprometa o dinheiro dos contribuintes (ao) para financiamento de práticas religiosas.

Separar a cidadania da fé é um dever cívico, tal como separar o Estado da religião é uma obrigação constitucional, esta, na opinião da AAP, grosseiramente violada na decisão do Conselho de Ministros.

Assim, a AAP denuncia mais este atropelo à laicidade e ao pluralismo e a escalada beata que confere à Igreja católica privilégios incompatíveis com um país democrático.

D. ANÍBAL E O OLHO DE D. GUILHERMINA

Carlos Esperança

O peregrino D. Aníbal e a laicidade traída

No próximo dia 26, parte para Roma um luzidio séquito chefiado por Sua Sereníssima Majestade D. Aníbal I, acolitado pelo presidente das cortes, D. Jaime Gama, o ministro dos Negócios Exteriores da Propagação da Fé, D. Luís Amado, o Condestável D. Valença Pinto, o cardeal do reino D. José Policarpo, o Superior da CEP e portador do hissope, D. Jorge Ortiga, o Superior da Ordem do Carmo em Portugal, padre Agostinho Marques de Castro, e o estribeiro-mor, Sr. Duarte Pio, especialista em solípedes que se ajoelham – autor, aliás, de um opúsculo de referência sobre a devoção dos cavalos de D. Nuno –, de quem se reclama familiar. De D. Nuno, claro.

O cortejo é composto por devotos que exaltam D. Nuno e exultaram quando ele, na paz da longa defunção, acudiu ao olho esquerdo de D. Guilhermina, atingido por salpicos ferventes de óleo de fritar peixe. Era o prodígio que faltava para a canonização de quem foi mais destro a matar castelhanos do que a pôr pensos. Após o milagre, por prudência e pela idade, D. Guilhermina trocou os fritos pelos cozidos.

A embaixada é inferior à que D. João V enviou a Clemente XI mas D. Aníbal I não é esbanjador nem procura de Bento XVI o título de «Senhor Fidelíssimo», ainda que o mereça no que se refere à fé e à constância matrimonial.

O reino anda aturdido com a honra da canonização do taumaturgo com provas dadas na especialidade de oftalmologia. É pena continuar morto, mas sendo uma ofensa para a razão é um orgulho para a fé que continue a pelejar, agora no ramo dos milagres.

Falta D. Guilhermina na peregrinação, para contar aos fidalgos como, perante a dor da queimadura, não se lembrou de Gil Vicente com palavras que, não sendo adequadas à salvação da alma, aliviam a dor, e se lembrou de evocar o bem-aventurado Condestável que o clero autóctone ansiava canonizar desde os tempos da Cruzada Nun’ Álvares.

Os ilustres peregrinos não vão a Roma bajular o Papa, vão agradecer a deus a cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus.

Quando a luzidia embaixada regressar à Pátria, com os joelhos doridos das genuflexões, a pituitária irritada do incenso e os corpos enegrecidos pelo fumo das velas, espera-se que o país rasteje de júbilo por mais uma farsa pífia e tantas genuflexões pias.

A INFANTARIA

Cumprindo as ordens do médico, que me mandou fazer grandes caminhadas, decidi-me a dar um longo passeio pela Internet. Eis senão quando um poema aparece à minha frente. E uma nostalgia incontrolável, invadiu-me: tinha lido este mesmo poema em Mueda, “Terra da Guerra”, Moçambique.

Voltei a lê-lo; e a empolgar-me com a linguagem que o poeta utilizou, e que foi tão bem traduzida e adaptada para o português.

O poema estava na página do Bruno, no HI5. Não sei quem é este Bruno, mas tenho de arranjar maneira de o felicitar. Há que tempos, eu andava à procura deste poema!

Eu também fui infante…

Tinha acabado a guerra; e Deus, lá nas alturas,

Cercado de astros de oiro e pulcros querubins,

Ouviu sons marciais, fanfarras e clarins,

E um ardente vozear de humanas criaturas.

“Que rumor – perguntou perturba assim o ar?”

“Senhor lhe responde alguém da corte celestial

-Os bravos vencedores da Guerra Mundial,

Sob o Arco do Triunfo estão a desfilar.”

Na célica mansão um sussurro se expande;

E a densa legião de almas plenas de graça

Acorre curiosa e se debruça e esvoaça,

P’ra melhor distinguir a marcha heróica, grande!

Então o bom S. Pedro, o santo venerando,

Que por mando divino é dos céus o porteiro,

Gritou: “Chamai Flambeau, o esperto granadeiro,

Para explicar o que se for passando.”

Flambeau, que combateu e foi dos mais ousados,

Acercase atencioso, observa por momentos E informa:

“Vão ali famosos regimentos,

A glória militar, indómitos soldados!”

Cavaleiros, então, avançam com ardor,

E ele anunciou: “Desfilam os dragões!…”

Estremecem no céu os áureos portões,

Que a voz do povo era um estrídulo clamor.

– “Mas isto nada é…”, disse Flambeau atento.

“Olhai a Artilharia!…” Em enorme alarido,

Reboam saudações qual ciclone enfurecido,

Ascendendo em rajada até ao firmamento.

E Flambeau continua: “Isto ainda não é nada!

Vereis melhor Senhor… Eis os aviadores!…”

Regougam pelo espaço os potentes motores,

A ponto tal que a voz do povo é sufocada.

Flambeau proclama com enlevo! “Os Marinheiros…”

Desta vez o entusiasmo os mundos excedeu;

E cativado, o sol, palmas de oiro abateu

Sobre os rijos heróis, que foram dos primeiros.

” Agora, Senhor meu – disse Flambeau ovante –

Vereis quando passar a nobre Infantaria…

Tenho medo que o sol estoire e finde o dia

E a noite eterna envolva a Terra num instante.

Serão aclamações estrondosas torrenciais,

Vibrarão no azul qual doida trovoada,

Verseá a multidão frenética, entusiasmada,

Delírio igual jamais se viu, jamais.”

Surgiram a seguir os homens das trincheiras,

Alpinos, caçadores e toda a infantaria.

Nas suas expressões claramente se lia

O martírio sofrido e angústias e canseiras.

Quando o canhão, rugindo, a morte semeava,

Impávidos, no posto, assim permaneciam…

Era uma coorte altiva, os tantos que ali iam,

Um grande, imenso, mar de heróis que ali passava.

Às quentes saudações que a multidão soltou

Silêncio se seguiu, silêncio e nada mais.

O espanto avassalou as regiões siderais.

E Flambeau, indignado, agreste se expressou:

-“Assim os recebeis, ó crua, ingrata gente?!

Por vós riram da morte e a fome desdenharam,

Cansados de sofrer jamais o confessaram,

São de aço os quais ali vão, tropa digna, valente!

Deveislhe orgulho, sim, a graça de viver,

E, em vez de os abraçar, calaivos? Mal andais.

Franceses, ouvi bem: Sois rudes, sois brutais,

Tamanha ingratidão não tem razão de ser.”

Mas mal termina a frase, olhando a Terra, fica

Possuído de orgulho, o coração em festa…

Os Infantes, semideuses, heróis em gesta,

Que a luz do sol poente envolve e magnifica,

Marcham erectos, viris, o olhar altivo e ousado…

Fremente, perturbada, a imensa multidão,

Por um alto mandato ou estranha inspiração,

Havia ajoelhado.

LUCIAN BOYER Adaptação livre do Cap. J.M. Galhardo