Archive for the ‘VIAGENS’ Category

O FOGO

Devo confessar o meu deslumbramento!

O fogo-de-artifício da passagem de ano na Madeira é algo digno de se ver. Claro que, para se usufruir de todo aquele espectáculo, é preciso estar numa posição privilegiada. O que, por acaso, era o meu caso. Instalado num hotel situado a meio da encosta, ou antes, daquele imenso e maravilhoso anfiteatro que é a encosta sobranceira ao Funchal, pude desfrutar do fogo disparado quer em terra quer no mar. Garantiram-me 97.182 disparos de fogo-de-artifício. Claro que houve exagero: foram, apenas, 97.180 disparos, como se pode verificar pelo filme, mas isso até nem é relevante. O que releva, neste caso, é o espectáculo, verdadeiramente fabuloso.
Mas… E a magia daquele momento único da passagem do ano, do soar da última badalada do ano que vai embora? Ah… Na Madeira, não existe. Não há “tchin-tchin”, há disparos de fogo. Ninguém salta de cadeiras, ninguém come as 12 “passas”, não há beijos e abraços, ninguém promete deixar de fumar, ninguém decide que “é desta vez que vou deixar o/a amante”, ninguém resolve começar a fazer dieta. O fogo-de-artifício tudo faz esquecer. O fogo-de-artifício é, também, um elemento inibidor de falsas promessas. Ailás, para isso já temos os políticos.
Mas valeu a pena, garanto-vos.

A JORDÂNIA EM BREVES PINCELADAS (Parte II)


Uma das coisas que aprendi nesta profissão de turista (que é uma profissão ingrata, fiquem a saber), é que se deve descontar cerca de 97,2% àquilo que os guias afirmam.
Por exemplo, logo no primeiro dia de visita à Jordânia, fomos encaminhados para Monte Nebo, em Mádaba (مادبا) onde, segundo nos venderam (nós comprámos) Moisés teria avistado a Terra Prometida, seja isso o que for. Mas nunca teria lá chegado, já que morreu no Monte Nebo. Ora, cabe perguntar: se, a ser verdade, Moisés morreu cerca de 1250 anos antes da Era Comum, o que andam a fazer os arqueólogos, que conseguem encontrar vestígios de dinossáurios extintos há milhões de anos, e não encontram ossadas dos hebreus que, durante quarenta anos (dá direito a três gerações, feitas as contas) vaguearam pelo deserto? Bom, mas deve ser verdade, uma vez que até lá puseram o “bordão de Moisés” (suponho que foi aquele que serviu para abrir o Mar Vermelho). Claro que o guia, com a honestidade que, em geral, caracteriza todos os guias, sempre foi avisando que há mais países que reivindicam a presença e morte de Moisés nas suas terras… O que me leva a concluir que, afinal, todos os guias falam verdade, Moisés é que tinha o poder da ubiquidade.
Apesar de ser um país relativamente novo, com independência declarada em 1946, a Jordânia já aprendeu que o turismo religioso dá muito mais dinheiro que o turismo de lazer. Ou seja, são muçulmanos mas não são parvos. O Monte Nebo está quase transformado em santuário, e em Betânia onde, segundo se assegura, Jesus – por alcunha “O Cristo” – foi baptizado, vai ser equipado com uma unidade para acolher peregrinos. Que, sinceramente, eu não vi. Provavelmente porque não há (ainda) a tal unidade de apoio. Ora, uma pesquisa pela “net” diz-nos que não há a certeza quanto ao local de baptismo; e a confirmar esta incerteza, há uma agência de viagens que promove uma excursão à “terra santa”, com visita a Betânia – local onde jesus foi baptizado. Aliás, o honesto guia já tinha avisado que os israelitas também tinham uma Betânia mas, tal como acontece com as religiões, esta Betânia (à esquerda) é que é a verdadeira. Isto não obstante a Wikipédia informar que Betânia se situa em Israel.
Curiosamente, os muçulmano0s aceitam Jesus, não como filho de Deus mas como um profeta, tal como Maomé. Aliás, eles aceitam todos os profetas bíblicos, o que se compreende, pois o Alcorão mais não é do que uma cópia foleira da Bíblia. Tal como os cristãos, os islâmicos acreditam que Jesus virá, um dia, não para salvar a humanidade mas para salvar o mundo. Jesus, segundo eles, não morreu na cruz; quem morreu foi outra pessoa no lugar ele. Jesus subiu ao céu, o que deve estorvar um pouco. Temos Jesus, Maria, que foi levada por dois anjos, e Maomé. Acho que já há pessoas a mais num lugar que era, em princípio, destinado às almas puras.
Mas isto, claro, é a minha opinião…

A JORDÂNIA EM BREVES PINCELADAS

SOBRE O AQUEDUTO

O Aqueduto das Águas Livres (“Aqueduto”, para os amigos), foi construído sob os auspícios do rei João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança, mais conhecido por D. João V, que os mais íntimos tratavam por “Magnânimo” t.c.p. “Rei-Sol Português”. Nessa altura, Portugal iniciava um período glorioso em termos financeiros período que, graças a Deus Nosso Senhor e ao Santíssimo Sacramento do Altar, ainda se mantém. Basta ver a facilidade com que se construíram vários inúteis estádios de futebol, tão úteis como o Convento de Mafra, como se vai construir o irracional TGV, e como se distribui, largamente, o dinheiro por primos, gestores, amigos, correligionários, primos dos primos, governadores do B.P. e por aí fora. Tudo questão de cartão partidário.

Bom, mas eu dizia que Portugal iniciava o seu período de explendor financeiro. Entre outros, foram construídos o inútil Convento de Mafra e o Aqueduto.
Não sei se, nessa altura, já tinha sido inventado o “princípio dos vasos comunicantes”, porque trazer água de Belas para Lisboa, atravessando o Vale de Alcântara, devia ser um bico-de-obra. D. João V resolveu o problema, mandando construir o Aqueduto.
Passear ao longo do monumento, é um exercício de fascínio, enchendo os olhos com uma vista de cortar a respiração. E mais não digo.
O que é curioso é que, perguntando aos lisboetas, não é fácil encontrar quem saiba onde se situa, exactamente, a entrada para o Aqueduto. Ou então, fui eu que tive azar… Porque quem acabou por me dar a indicação certa, foi uma mulherzinha vendedeira de fava-rica, que até tinha sotaque de Trás-os-Montes. Os lisboetas, esses, ficavam a olhar para mim, com cara de… alfacinhas. E a sua expressão era eloquente “querem ver que estes bimbos acham que nós somos obrigados a saber tudo?” Vergonha! Qualquer tripeiro sabe como se faz para subir à Torre dos Clérigos! Falta de bairrismo, é o que é.
Seja como for: da próxima vez que for a Lisboa, visite o Aqueduto das Águas Livres. Não tem que enganar: mete-se num autocarro para Campolide, pergunta onde é a Calçada dos Mestres, e… o Aqueduto aparece-lhe em toda a sua grandeza. Se estiver no Amoreiras, é um saltinho a pé.
Não tem nada que agradecer.


VIAGEM À ILHA DO SAL

Pouco mais há para dizer acerca desta Ilha do Barlavento cabo-verdiano; a 
Wikipédia” diz tudo. Ou quase.

E este “quase” é muito.

Desde logo, pelas suas características: trata-se de uma ilha desértica, se bem que

 rodeada pelo oceano. Com efeito, uma viagem ao longo da ilha mostra-

nos um solo muito árido, com vegetação rasteira, e onde as únicas plantas de porte razoável são… palmeiras.

A ilha do Sal deve o seu nome à existência de cloreto de sódio em grandes quantidades na cratera de um vulcão. Devido 

ao baixo
 relevo da ilha, o fundo dessa cratera atinge um nível inferior ao das águas do mar. Po
r este facto, a água infiltra-se através das paredes do vulcão, fluindo para a cratera. Aí foram criadas as salinas, cujo sal era exportado para todo o mundo.
Durante muito tempo, o sal foi considerado, em Cabo Verde, o “ouro branco”; agora, ainda para mais com os médicos a recomendarem o corte ao consumo de sal, a extracção deste produto praticamente não tem expressão.
Estas propriedades desérticas, aliadas à grande quantidade de areia que o vento transporta do deserto do continente africano, transformaram o Sal numa ilha de características únicas: Verão durante, praticamente, todo o ano (a temperatura mínima situa-se pelos 22º), com chuva se houver azar (calhou-me a mim…) e com extensos areais de areias finas e douradas. Ou seja, com turismo durante o ano inteiro, com forte migração interna – e externa, pois então. A água que se consome é extraída do mar e dessalinizada; a energia eléctrica é fo

rnecida por geradores. Apesar de tudo, a ilha é considerada em vias de desenvolvimento.
A “riqueza” da ilha provém da pesca, 
principalmente de atum, e do… turismo. Não há (como podia haver?) agricultura, e os bens essenciais provêm das outras ilhas. No entanto, não há aquela “pobreza africana” que estamos habituados a ver na TV: crianç
as com barrigas inchadas, etc.
Parece que há marisco. Eu digo parece, porque não o vi. Há quem tenha visto e, até, comido. Contaram-me, depois, que tinha sido excelente para limpar os intestinos… Mas há cracas. Que eu aconselho vivamente a quem se deslocar

 àquela ilha – embora as cracas também possam ser encontradas na Madeira e, mais abundantemente, nos Açores.
O turista menos informado é surpreendido agradavelmente quendo é abordado por “nativos” que entabulam conversa, dando grandes elogios aos portugueses, que eles consideram ter um “coração muito bondoso”. Começam por oferecer-se para nos conduzir até ao “mercado” que, afinal, mais não é do que uma “loja” onde expõem artesanato africano. Ali, como “prenda”, oferecem-nos uma peça de artesanato, o que logo nos compromete; sentimo-nos como que “obrigados” a comprar… Felizmente, como tenho experiência de visitas a outros locais africanos, apliquei o “truque”: marralhar o preço até ao mínimo possível. E comprei porque quis.
Mais tarde, veio a informação: afinal, não eram cabo-verdianos; eram senegaleses ou guineenses. Na verdade, os cabo-verdianos têm a pele bem mais clara, e o cabelo não é tão encarapinhado.

CRÓNICA DE UM TURISTA APARVALHADO

Este ano decidi passar uns dias em Lisboa. Já lá tinha estado por diversas vezes, mas há muitos anos que lá não ia em visita turística.

Chegado à estação do Oriente, foi uma maravilha!!! Como a minha (pesada) mala dispõe de dois rodísios nada me custou transportá-la até à estação do Metro: elevador, escada rolante… Ah! Lisboa sempre é a capital, e está tudo dito.
Foi um tirinho até à estação da Alameda, e as facilidades continuaram. Seguido de perto pelo rrrrrrrrrrr que as rodas da mala faziam no chão, foi só mudar de comboio que me iria levar até à estação de Roma. Foi aqui que comecei a ficar aparvalhado… Como é que vai ser para levar a mala lá para cima? Nem elevadores nem escadas rolantes, mas uma conclusão científica: as rodas da mala não ajudam nada para subir escadas. Carreguei com ela escada acima, o que equivaleu a DUAS semanas de exercício físico. Pelas minhas convenientes contas, claro. O ginásio vai ter de esperar.
Pensei melhor: nem tudo é negativo. Isto só pode significar que não há inválidos em cadeiras de rodas, e que as mamãs, por qualquer razão que desconheço (só estive três dias na terra dos lampiões, não deu para ver tudo), não necessitam de andar com carrinhos de bebé. Olha, afinal enganei-me… ali vai uma, com um carrinho de bebé, a descer as escadas. Eu bem gostaria de ajudá-la, mas… e a minha mala? Se a largo, ela vai-me pela escada abaixo até ao cais. Ali perto, bem perto, um entroncado “segurança” assobiava para o lado o “Lisboa antiga”.
Dia seguinte. Decidimos dar um passeio até Sintra. Estação do Rossio, bilheteira: «Dois bilhetes para Sintra, ida-e-volta, por favor. Um é sénior». O simpático funcionário (ou seria funcionária? Ai esta minha memória…) elucidou-me: «Não vendemos bilhetes sénior de ida-e-volta». «Mas isto não é da CP?» «É». «Mas olha que eu comprei um bilhete sénior de ida-e-volta para o Intercidades». «Pois, não digo que não, mas para Sintra não». «Essa agora! Mas porquê?» (Abro parêntesis para um comentário: há velhotes que são chatos pra burro! Querem saber tudo). «Sinceramente, não sei. Mas é assim…».
Como queria, mesmo ir a Sintra, lá comprei o bilhete só de ida, esperançado em que alguém me deixaria regressar, nem que tivesse de comprar outro bilhete para a volta.
Último dia. Decidimos tomar uma refeição ligeira. Escolhemos a “Companhia das Sandes”, na Rua dos Correeiros. Enquanto eu passava os olhos pelas várias opções, minha mulher foi à casa-de-banho. Quando regressou, trazia tristes notícias: «Vi duas enormes baratas; uma no corredor, outra no quarto-de-banho». Não me disse mais nada, que eu não deixei, preocupado que estava em dar corda aos sapatos. Baratas enormes, é sinónimo de baratas bem alimentadas. Provavelmente, alimentadas com o pão que eu iria meter à boca.
A refeição ligeira ficou-se, afinal, por um mero cozido à portuguesa, para mim, e um arroz de pato para ela.
Não fomos à casa-de-banho. Pelo sim pelo não…

OS ÍCONES RELIGIOSOS


Bom. Não há cidade, vila, aldeia ou simples lugarejo que seja digno desse nome, que não tenha o seu orago. Ora, dada a multiplicidade de cidades, vilas, aldeias e lugarejos, pede-se um esforço suplementar à imaginação para criar santo, santa, virgem ou mártir que não seja igual à do/da vizinha. Daí o aparecerem nomes algo fora do vulgar como o “Senhor da Paciência” ou a “Senhora do Pópulo”.
Em Espanha, na Galiza, entre Sanxenxo e O Grove, existe, também, uma “senhora”: a “Senhora da Lanzada”. Não se sabe se apareceu a pastorinhos ou a uma qualquer Bernardete. Sabe-se, isso sim, que é virgem, como convém, e que é remédio santo para arranjar um bom marido e/ou para ter filhos. Infelizmente, o prospecto publicitário é omisso quanto a arranjar uma boa esposa (ou uma esposa boa, que não é a mesma coisa). Quanto à forma de arranjar o tal bom marido e/ou um filho (dizem-me que os ginecologistas andam todos pelo desemprego, naquela zona) basta que a requerente entre na água da praia que banha a ermida no último sábado de um mês que não tenha a letra R (tem graça, dizem que o marisco também não se deve comer nesses meses…) e, molhando-se até ao ventre, receba o impacto de nove ondas. O prospecto é, neste ponto, muito exigente e taxativo: nem uma onda a mais, nem a menos. Têm que ser nove, porque o nove é o inverso do treze (?????).
Bom: para arranjar marido não sei, porque nunca experimentei; mas para ter filhos, sei que há uma maneira mais fácil, menos molhada e bem mais saborosa. Provavelmente, as moças de A Lanzada é que a desconhecem…
A publicidade é que não tem limites… Mas eu ainda me vou enternecendo com estas manifestações de ingenuidade.
Ou será de estupidez e obscurantismo?