Archive for the ‘CULTURA’ Category

DEMOLIDOR…

Nunca vi, ou li, na minha vida, uma crítica tão demolidora como a que abaixo transcrevo, publicada no “Expresso” de 13 de Junho de 2009 pela pena de Jorge Calado.

A ópera, meus amigos, é um espectáculo que merece o máximo respeito. Sim, bem sei que todos os espectáculos, desde que apresentados com honestidade, devem merecer respeito; mas há casos e casos e, no caso presente, o autor da ópera nem está cá para se defender. O que torna a coisa mais grave. Se eu tiver a lata de ir a um palco cantar uma música do Quim Barreiros e aquilo sair mal, é certo e sabido que o Quim é capaz de vir a terreiro chamar-me nomes; no caso em apreço, Mozart limita-se a dar umas voltas no caixão. Daí o respeito que nos devem merecer todas as obras cujos autores já não estão cá para as defender.

Eu não posso, nem devo, acrescentar seja o que for ao que já foi escrito. Primeiro, porque não vi o espectáculo; depois, porque já tudo foi dito. E não foi pouco. Mas posso, e devo, realçar um pedaço delicioso do texto. E que gozo me deu realçá-lo! Só tenho receio de que o ministro da cultura não leia o “Expresso”. Mas devia lê-lo. Pelo menos, este “Expresso” e esta crítica. Talvez sentisse um pouco de vergonha pela asneira que fez.

E daí, talvez não…


SÃO CARLOS FECHA A TEMPORADA LÍRICA COM OUTRA PRODUÇÃO DESASTRADA

TEXTO DE JORGE CALADO

É PRECISO TOPETE para

entregar a encenação de “Don Giovanni” (1787) a um principiante. (Maria Emília Correia tem obra respeitável no teatro, mas esta era apenas a sua terceira incursão na ópera.) Ainda por cima, o elenco deixava muito a desejar, oscilando entre o execrável e o sofrível escolar, e faltou verve mozartiana à direcção orquestral. A ópera é segundo os autores, um dramma giocoso, mas os sorrisos (amarelos) vinham da leitura dos sobretítulos, não do palco. E não se sentiu o mais pequeno arrepio nesta que é a mais sublime das óperas — provavelmente a maior de todas jamais compostas. Em suma, um falhanço redondo, sem ponta por onde se lhe pegue

O que é frustrante e desanimador é que o director artístico, Christoph Damn não aprende com os seus erros. Joha Stert era um reles Kapellmeister da Ópera de Colónia que no ano passado tinha provado a sua incompetência mozartiana em “La Clemenza di Tito”. Pois bem, regressou para Mozart O trio de cantores residentes (?), verdes e banais, tem origem em Colónia; são atirados, a torto c a direito, para papéis principais. Há, por cá, bastante melhor, mas Herr Damman não se deu ao trabalho de os ouvir. Apesar da magnifica catedral, Colónia não é o centro da Europa e muito menos do mundo operático, mas parece ser o umbigo de Dammann. Finalmente, parece que temos de gramar sempre mesmos cantores convidados: Kevin Short fez, em Janeiro, um Mefistófeles aceitável; cinco meses passados, ai esta ele outra vez, mas, mal dirigido, nem mostrou ser bom actor. O São Carlos nunca foi, não é , nem pode ser (por falta de dinheiro) um teatro de repertório. Com apenas seis óperas por ano (menos do que qualquer teatro de província espanhol), o público português tern direito a ouvir mais e melhores cantores. Diga-se, de passagem, que os bilhetes são caríssimos em relação ao equivalente internacional (e não me refiro apenas ao binómio qualidade/preço). Maria Emília Correia não tern nada a dizer em relação ao “Don Giovanni” — e mostra isso no texto paupérrimo que escreveu para o programa.

A ópera é apresentada num cenário único, baratucho, género musical duma Broadway de terceira (e custa-me muito ver António Lagarto, responsável também pelos figurinos, a colaborar neste desastre), que tanto é Espanha (Hotel Alfonso XIII), como tern graffiti em francês, como é praia (aproveitando, talvez, os feriados de Junho). Quando as ideias faltara, abusa-se dos figurantes extra, como é o caso. Uns sujeitos empertigados marcham em fila e deitam-se no chão — e cã temos um cemitério todo modernaço. O protagonista parece ter uma fixação com sapatos, e o catálogo é uma espécie de baú da Imelda Marcos, de onde saem sapatos de todas as cores e para todos os gostos. Só não percebi porque é que o protagonista, no ‘Fin ch’han dal vino’, não bebeu champanhe por um sapato. Já agora, levava-se o disparate ate ao fim.

0 pior estava reservado para o final. Já se sabia que quem ver mamas ao vivo e sexo anal simulado deve ir a correr comprar um bilhete para o São Carlos. E para isso que há as Matines de Família. O que não esperava era assistir ao crime musical de interferência e amputação do genial final criado por Mozart e DaPonte (sem aviso no programa). Mas o São Carlos tomou o gosto as mutilações das operas que apresenta e a tutela aguenta. A ópera, tal como foi concebida, não se quadrava com a concepção (?) de Correia. Toca de fechar a cortina após a morte do Don (com o publico pateta a julgar que o espectáculo tinha acabado), elimina-se o delicioso final que mostra como a vida continua e passa-se directamente ao concertante, com os personagens embrulhados nuns lençóis, quais fantasmas, num céu cheio de neve carbónica. A reacção não se fez esperar uns buuus monumentais, que é o que tudo isto merece. Ainda se a parte musical se safasse… Mas a direcção de Stert é chata e arrastada, os desencontros são frequentes e a desafinação é recorrente (aquele trio “”das máscaras, meu Deus!). Apresentado pelo Círculo Portuense de Opera, Nicola Ulivieri fez um excelente Don Giovanni no Porto, há dez anos (uma informação sonegada nesta apresentação). Aliás, com Vaz de Carvalho no Leporello e Denia Mazzola na Donna Elvira, essa produção mete esta num chinelo. (Curioso como o CPO deixou de ser subsidiado; dez mil euros no CPO valiam bem mais que um milhão no actual São Carlos). Desta vez, para se impor no meio da desgraça geral, Ulivieri berrava (que tem voz para isso), mas não exsudava uma pérola de erotismo. Katharina von Billow (Donna Elvira) é uma das piores cantoras que, nos últimos tempos (reconhecidamente maus), pisou o palco do São Carlos. Sem voz, uns guinchos a fazer de agudos, sem estilo, devia ter sido devolvida a procedência após o primeiro ensaio. Musa Nkuna (Don Ottavio) tem um timbre bonito e Carla Caramujo (Donna Anna) é dos raros interpretes a aproximar-se do estilo, mas não chega para papéis de tal envergadura e responsabilidade. O terço inferior da voz de Andreas Hörl (Commendatore) e inaudível — precisamente o terço mais exposto nesta ópera. Resta o par de camponeses, Masetto e Zerlina. O primeiro, Leandro Fischetti, não tem voz nem talento que se recomende; a segunda, uma cantora medíocre, acabou por brilhar. Fica tudo dito.




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SOMOS TODOS RACISTAS?

Há dias, reencaminhei um e-mail que anexava o vídeo que aqui podem ver.
Confesso que, quando recebi essa mensagem, e depois de a ter visto, a minha primeira preocupação foi proceder ao reenvio (não quero que falte nada aos meus amigos…) e, a seguir, arquivá-la. Não voltei a pensar nela. Devia tê-lo feito, mas não fiz.
Hoje, resolvi “limpar o sótão” do meu PC; e eis que a mensagem me salta para o monitor. Boa!!!
E resolvi meditar um pouco sobre ela, ou antes, sobre o assunto que ela aborda.
Hoje em dia, o mundo está povoado de organizações que pregam, discutem, protestam, se manifestam etc, em prol da igualdade racial e contra a xenofobia. E eu assino por baixo. Mas o pequeno filme leva-me (-nos?) a fazer algumas perguntas. Desde logo: o que é o racismo? Como aparece o racismo?
Os valores que, como adultos, possuímos, são aqueles que nos são transmitidos pela sociedade em que nos inserimos. Alguns desses valores são adquiridos por imitação, outros por educação. Ou seja, são-nos transmitidos no seio da família. e é aqui que eu quero chegar – pois há mais formas de aquisição de valores.
Quando eu era criança, e o tempo que eu demorava a comer a sopa era inversamente proporcional à paciência da minha Mãe, esta ameaçava-me “Se não comes depressa, vem a cigana e leva-te”. E, na verdade, de vez em quando aparecia, lá pelo bairro, uma cigana a “ler a signa“, que colaborava com a minha progenitora “o menino tem comido a sopa toda?” O que, ao longo dos anos, me levou a olhar para os ciganos de lado (e hoje, salvo honrosas excepções, ainda não os olho bem de frente…). No entanto, NUNCA a minha Mãe me disse “se não comeres depressa vem um preto e leva-te”. Se calhar porque havia mais ciganos que pretos…? Não sei. Mas, tanto quanto me recordo, nunca, nas nossas conversas de meninice, o problema dos pretos foi abordado como fazendo parte dos nossos medos colectivos – ou individuais. Aliás, não era abordado, ponto final.
Mas vamos supor – e esta hipótese, ainda que meramente académica, é conveniente – que sim. Vamos supor que os nossos antepassados nos incutiam a rejeição dos pretos. Façamos de conta que sim. Então, eu pergunto: o que pode levar uma criança preta a rejeitar a boneca igualmente preta? O que pode levar uma criança preta a garantir que a boneca preta é má?
Não resisti, e voltei, agora mesmo, a passar o filme. E demorei-me a contemplar a atitude do rapazinho quando o adulto lhe pergunta “Qual a boneca que se parece com você?”
Porquê? O que leva um adulto preto a dizer – como me disse um, quando o aconselhei a ir trabalhar para as plataformas petrolíferas em Angola “Eu não trabalho PARA pretos”?
Será que, no fundo, e a razão não é de aquisição de valores, mas outra que me escapa, somos todos racistas? Será que somos “anti-racistas” porque é politicamente correto?

"PORTO DIZ ADEUS À ÓPERA"

Antes de mais: não estou mandatado por ninguém, nem me atrevo a tentar, sequer, substituir quem é muito mais capaz e tem muito mais – perdão: tem todo! – o direito de puxar pelos pergaminhos. Em resumo: não escrevo em nome de ninguém.
Mas acho que a minha inteligência e a de todos os portuenses, principalmente os que apreciam a boa música e não alinham em pimbalhadas de carreira, ainda que adornadas com ágatas. Mesmo que haja padres a fazer borga. E a minha inteligência, que é por ela que falo, não merece ser insultada, de tão pequenina que é.
O “Jornal de Notícias”, na sua edição de 16 de Dezembro de 2008, na sua página de Cultura, insere o título que acima transcrevi. A notícia, que pode e merece ser lida, resume-se em maia-dúzia de palavras: o ministério da cultura (?) recusou, ao Círculo Portuense de Ópera (CPO), um subsídio anual de 250 mil euros.Essa recusa de verbas impediu o CPO de realizar DOIS espetáculos de ópera, em 2008. De acordo com fonte governamental, esse apoio foi atribuído à Casa da Música (CdM), e “já contempla verbas para a ópera”, adiantou ao JN o gabinete de comunicação.
Salvo o muito e devido respeito por melhor opinião, a fonte do MC não se limita a estar inquinada; ela jorra mentira atrás de mentira.
Quem não tem a memória muito curta (e os macrocéfalos lisboetas acham que, no Porto, a memória é inexistente) há-de lembrar-se de que, quando foi inaugurada a CdM, houve grande celeuma. Mais: alguma comunicação social denunciou o enorme fiasco que foi fazerem a CdM sem um fosso para orquestra, sem um palco devidamente dimensionado, e sem poço para cenários. O que, desde logo, inviabilizava todo e qualquer espectáculo de ópera.
Que não, berraram as virgens ofendidas; a CdM não foi construída a pensar em ópera. Eu repito: não foi construída a pensar em ópera. Ou seja, ópera não é música. “O bacalhau quer alho” é, provavelmente, música erudita…
Então, não está vocacionada, mas retira-se o subsídio a uma entidade que tem mostrado grande valor em espectáculos operáticos (sou suspeito, já aviso; é que eu faço parte do Coro) e entrega-se esse dinheiro a uma entidade que não está vocacionada nem tem condições… para que essa entidade faça ópera???? Considera-se a CdM uma “estrutura capaz” de produzir ópera????
No fundo, eu compreendo: as eleições aproximam-se. A cultura não dá, nunca deu, votos. Quem quer votos, aposta no futebol ou na religião. Católica, de preferência. Por isso é que até houve um ministro (ou seria secretário de estado?) que gostava de ouvir os concertos para violino de Chopin (!), tal é o cuidado com que escolhem os responsáveis pelo pelouro (eu ia escrever “poleiro”, mas emendei a tempo). O desgraçado do Frederic deve der andado às voltas no túmulo, a tentar lembrar-se de quando terá escrito os “concertos para violino”…
Se fosse um padre ou um vendedor de pneus usados a dirigir o CPO, outro galo cantaria…
Mas é tudo uma quastão de tentar.

TENTATIVAS E FRUSTRAÇÕES

Há pouco, no noticiário matinal da RTP, uma jornalista dissertava acerca de uma “tentativa frustrada” de roubo de uma caixa Multibanco.

Confesso, desde já, que a língua portuguesa não é o meu forte, embora a tenha começado a aprender logo no berço. Talvez por isso algumas expressões me causem perplexidade.
Vou tentar raciocinar: quando se tenta fazer uma coisa, ou se consegue fazê-la, ou não. No caso em apreço na notícia, os malandros (perdão: presumíveis malandros) tentaram roubar a caixa Multibanco. Como não conseguiram, o roubo foi frustrado. Parece-me que é assim.
Mas a jornalista acha que não. E diz que o que foi frustrada foi a tentativa. Ou seja, nem sequer houve tentativa, já que esta foi frustrada.
E eu pergunto: o que foi a PJ lá fazer, uma vez que não houve crime? Nem tentativa, já que ela foi frustrada?
Ou sou eu que estou mal?

A LÍNGUA PORTUGUESA…

Alguém disse – e eu assino por baixo – que a língua portuguesa é muito traiçoeira. Também acho. Mas o pior são as pessoas que contribuem para essa “traição”.

Vou tentar explicar: Há poucos momentos, o “pivot” da RTP dizia, no noticiário da hora de almoço, que (e cito de memória) o jogo de ontem entre as equipas de Portugal e da Dinamarca se saldou por uma derrota para a
equipa nacional. Fiquei na dúvida… Afinal, qual das duas equipas foi derrotada? A portuguesa, ou a dinamarquesa? Porque, na verdade, as duas equipas são nacionais. Na minha modesta opinião, claro. E eu tenho muito orgulho na modéstia das minhas opiniões.
Aliás, parece que o Dicionário Pro da Língua Portuguesa (Porto Editora) é da mesma opinião. Não sei é se é tão modesta como a minha (o que será difícil, convenhamos. Eu acredito que tenho a mais modesta de todas as modestas opiniões). Vejamos o que diz:
“NACIONAL
adjectivo 2 géneros
1. da nação; pátrio;

2. referente a nação;

3. que pertence à nação ou ao Estado;

4. que representa a nação ou o país;

5. que é natural de um país;

6. produzido ou feito num país;
substantivo 2 géneros
pessoa natural de um país;
(Do lat. natióne-, «nação» +-al)”
(Fim do copiar/colar)

Ora, vasculhando bem, como é meu apanágio, não consigo vislumbrar onde se diz que”nacional” significa “português”.  Pelo que, naquela altura, fiquei sem saber qual das duas equipas tinha ganho.
Mais grave: fiquei sem saber qual das duas equipas tinha sido derrotada! E toda a gente sabe que ser 

derrotado é muito pior que ganhar. Nem que seja a feijões… Porque, na minha mais que modesta opinião, ambas as equipas são nacionais
Tão nacionais como, por exemplo “A Marselhesa” ou “A Portuguesa”. Ambos são hinos nacionais.
…Ou sou eu que estou errado?

OS "GENÁRIOS"

Dizem que “ler jornais é saber mais”. Ler jornais e ver televisão, já agora.
Pois bem, foi a ler jornais que eu descobri os genários.
Devo dizer que descobri os genários há alguns anos; mas a verdade é que nunca tive tempo para me dedicar ao estudo do fenómeno. Felizmente que, agora, que a aposentação sempre me vai deixando uns tempitos livres entre os diversos períodos de férias, pude, finalmente, debruçar-me sobre o assunto. Consultei diversa bibliografia (cuja descrição acabaria por ser maçadora para os eventuais leitores), entrevistei várias pessoas ligadas à ciência em geral, à antropologia em particular, e à cultura, em geral e no particular. Não tive ocasião de entrevistar nem a Lili Caneças nem a Paula Bobone, o que lamento, mas também não se pode ter tudo. O padre Borga vociferou por eu ter chegado tarde à missa e acabou por não me dar a entrevista.
Então decidi escrever um livro acerca dos genários; mas para não obrigar os leitores a gastar dinheiro na compra, para evitar a longa espera até que o livro seja editado (e nada garante que o vai ser nesta geração ou, sequer, neste século) e porque não quero que lhes falte nada, aqui vai uma epítome, necessariamente concisa, do estudo a que procedi.
Um genário é um homem. O que significa que uma genária é uma mulher. Mas, por uma questão de economia (homem leva cinco letras e mulher leva seis), vamos falar em genários, apenas, partindo-se do princípio que se aplica a ambos os sexos.
Pois bem, genário é uma classe humana. A partir dos vinte anos, e até finais dos noventa anos, o ser humano é genário. A partir dos cem anos, porém, passa a ser, apenas, nário. Os vários cientistas ainda não encontraram explicação para o fenómeno.
Os genários subdividem-se em categorias: vi, tri, quadri, quinqua, sexa, septua, octo e nona. Mas a verdade é que, se bem que todas as categorias existam, a comunicação social costuma dar relevo aos genários a partir da categoria sexa, ou sexagenários. Assim, é quase sempre um sexagenário que foi socorrido de urgência devido a um acesso de priapismo, um septuagenário que enviuvou após 15 dias de casamento com uma jovem, um genário da categoria octo, ou octogenário que vai requerer o subsídio de desemprego. Já os nários, que só têm uma categoria, os cente – por isso são chamados de centenários, ou, mais modernamente, centenários, só são referidos em casos excepcionais, não havendo registos da existência de nários da categoria bicente não confundir com Vicente, não tem nada a ver), ou bi-centenários. Pelo menos, a partir do Novo Testamento, já que no Velho era vulgar os homens serem multi-centenários (ignora-se quanto tempo duravam as mulheres, porque a Bíblia pura e simplesmente ignora as mulheres).
Mas a verdade é que há genários que são, sistematicamente, omitidos pela comunicação social: são os que têm menos de sessenta anos de idade. Não me recordo, por exemplo, de ter lido, ou visto, ou ouvido, que um quinquagenário teve um acidente, ou que um trigenário foi espoliado da sua pensão de reforma. Normalmente referem-se a um jovem de trinta anos, um homem de quarenta anos, um indivíduo aparentando cinquenta anos. Só a partir dos sessenta é que se adquire o direito de ser designado por genário, o que me parece correcto, dado o “tempo de serviço” entretanto percorrido.
Pela parte que me toca, pertenço à classe sexa. O que não é mau, embora me desse algum jeito a alteração da última vogal. Aguardo, ansiosamente, a passagem à categoria imediatamente superior – o que vai acontecer, em princípio, daqui a alguns anos.
Um abraço a todos os genários. E aos nários, também.

OS "GENÁRIOS"

Dizem que “ler jornais é saber mais”. Ler jornais e ver televisão, já agora.
Pois bem, foi a ler jornais que eu descobri os genários.
Devo dizer que descobri os genários há alguns anos; mas a verdade é que nunca tive tempo para me dedicar ao estudo do fenómeno. Felizmente que, agora, que a aposentação sempre me vai deixando uns tempitos livres entre os diversos períodos de férias, pude, finalmente, debruçar-me sobre o assunto. Consultei diversa bibliografia (cuja descrição acabaria por ser maçadora para os eventuais leitores), entrevistei várias pessoas ligadas à ciência em geral, à antropologia em particular, e à cultura, em geral e no particular. Não tive ocasião de entrevistar nem a Lili Caneças nem a Paula Bobone, o que lamento, mas também não se pode ter tudo. O padre Borga vociferou por eu ter chegado tarde à missa e acabou por não me dar a entrevista.
Então decidi escrever um livro acerca dos genários; mas para não obrigar os leitores a gastar dinheiro na compra, para evitar a longa espera até que o livro seja editado (e nada garante que o vai ser nesta geração ou, sequer, neste século) e porque não quero que lhes falte nada, aqui vai uma epítome, necessariamente concisa, do estudo a que procedi.
Um genário é um homem. O que significa que uma genária é uma mulher. Mas, por uma questão de economia (homem leva cinco letras e mulher leva seis), vamos falar em genários, apenas, partindo-se do princípio que se aplica a ambos os sexos.
Pois bem, genário é uma classe humana. A partir dos vinte anos, e até finais dos noventa anos, o ser humano é genário. A partir dos cem anos, porém, passa a ser, apenas, nário. Os vários cientistas ainda não encontraram explicação para o fenómeno.
Os genários subdividem-se em categorias: vi, tri, quadri, quinqua, sexa, septua, octo e nona. Mas a verdade é que, se bem que todas as categorias existam, a comunicação social costuma dar relevo aos genários a partir da categoria sexa, ou sexagenários. Assim, é quase sempre um sexagenário que foi socorrido de urgência devido a um acesso de priapismo, um septuagenário que enviuvou após 15 dias de casamento com uma jovem, um genário da categoria octo, ou octogenário que vai requerer o subsídio de desemprego. Já os nários, que só têm uma categoria, os cente – por isso são chamados de centenários, ou, mais modernamente, centenários, só são referidos em casos excepcionais, não havendo registos da existência de nários da categoria bicente não confundir com Vicente, não tem nada a ver), ou bi-centenários. Pelo menos, a partir do Novo Testamento, já que no Velho era vulgar os homens serem multi-centenários (ignora-se quanto tempo duravam as mulheres, porque a Bíblia pura e simplesmente ignora as mulheres).
Mas a verdade é que há genários que são, sistematicamente, omitidos pela comunicação social: são os que têm menos de sessenta anos de idade. Não me recordo, por exemplo, de ter lido, ou visto, ou ouvido, que um quinquagenário teve um acidente, ou que um trigenário foi espoliado da sua pensão de reforma. Normalmente referem-se a um jovem de trinta anos, um homem de quarenta anos, um indivíduo aparentando cinquenta anos. Só a partir dos sessenta é que se adquire o direito de ser designado por genário, o que me parece correcto, dado o “tempo de serviço” entretanto percorrido.
Pela parte que me toca, pertenço à classe sexa. O que não é mau, embora me desse algum jeito a alteração da última vogal. Aguardo, ansiosamente, a passagem à categoria imediatamente superior – o que vai acontecer, em princípio, daqui a alguns anos.
Um abraço a todos os genários. E aos nários, também.