Archive for the ‘LÍNGUA PORTUGUESA’ Category

A LÍNGUA PORTUGUESA…

É terrível. Traiçoeira. Prega partidas que nem ao Diabo lembram. Está um simpático jornalista a escrever uma notícia, e… pimba! A língua portuguesa prega-lhe uma rasteira. Vejam só: Mas, quando se preparava para colocar as manilhas da conduta de água, num buraco com mais de seis metros de altura, João Ramos foi atingido por uma desmoronamento de terras.(1)
Ou seja, o trabalhador estava a escavar o buraco para cima. Afinal, os buracos têm altura, ou têm profundidade?

(1) Correio da Manhã de 2009/10/19

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"A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA"? (II)

Estou convencido de quefalar ou não falar português correctamente – ou, pelo menos, tentar fazê-lo – deixou de ser uma questão de conhecimento ou ignorância, e passou a ser uma questão de moda. Ainda não há muito tempo, a moda era o efectivamente; depois, passou a implementar-se isto e aquilo; ocasionalmente, despoleta-se um acontecimento qualquer, sem a noção de que despoletar significa, precisamente, desactivar, tornar inerte. De vez em quando ainda se vai ouvindo – e lendo – que amanhã vamos ter um dia solarengo, quando deviam dizer – e escrever – um dia soalheiro. Qualquer dicionário nos diz que um dia nunca pode ser solarengo, porque solarengo refere-se a solar e, neste caso, solar não tem a ver com o sol, mas sim com casa senhorial. O dicionário não deixa dúvidas:

solarengo

adj.
adj.
1. Relativo ao solar (casa nobre).
s. m.
2. Ant. Senhor de solar.

3. Aquele que, como serviçal ou lavrador, vivia no solar ou fazenda de outrem.

Ultimamente, está em moda a “acusação de ter morto o seu vizinho”. Por exemplo. Ainda há dias, num qualquer programa televisivo a entrevistadora agradecia à entrevistada o facto de “ter aceite” o convite. Ah: também há pessoas que são encarregues de cumprir esta ou aquela missão…Também neste caso não vou alinhar na teoria da ignorância porque, a sê-lo, é grave. Trata-se de moda, ponto final. Ou seja: alguém escreve um disparate, outro acha piada e copia simiescamente. É mais ou menos como andar com os éculos na cabeça ou as calças a meio da coxa. Não interessa se está bem ou fica mal; copia-se e pronto. O que é preciso é “imaginação”.
Ora, e volto a invocar a antiga “escola primária”, donde não saía aluno que não soubesse as regras básicas da gramática (acho que hoje só se ensina isso nos doutoramentos ou mestrados), há verbos que têm dois particípios passados. Mas como essa explicação deve ser dada por quem sabe, aqui vai um texto retirado do “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa”, cuja consulta frequente aconselho. Ei-la, com a devida vénia:

Alguns verbos do português, que são chamados abundantes por Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, têm dois particípios passados. Estes verbos mantêm um particípio passado conservador, isto é, que se forma segundo a regra geral da formação dos particípios passados, e têm outro considerado inovador porque não obedece à regra geral: Conservador: Matar – matado Morrer – morrido Ganhar – ganhado Inovador: Matar – morto Morrer – morto Ganhar – ganho O uso dos particípios passados não se faz, porém, de forma aleatória: com os auxiliares ser e estar usa-se o particípio inovador: «Ele está morto.» «Ele foi morto.» «O dia está ganho.» Com o verbo ter usa-se a forma conservadora: «O João tinha matado a galinha.» «Este ano tem morrido muita gente.» «O João tem ganhado muito dinheiro com aquele proje(c)to.» Note-se que o verbo ganhar está a perder o duplo particípio, sendo cada vez menos utilizado o particípio conservador. Começa a aparecer com alguma frequ[ü]ência tem ganho. Há, aliás, quem considere que esta é já a forma recomendável e identifique ter ganhado como um regionalismo conservador. A observação do consulente tem, pois, toda a razão de ser. Façamos votos de que os nossos “media” comecem a honrar e a respeitar a nossa língua como ela merece e como nós, ouvintes, telespectadores ou leitores, merecemos.

Edite Prada :: 09/02/2004

Nos casos acima, a entrevistadora devia agradecer por a entrevistada ter aceitado o convite, uma vez que o convite foi aceite pela entrevistada. Também as pessoas são encarregadas de cumprir uma missão, e não encarregues. Voltemos ao “Ciberdúvidas”:

O particípio passado aceite emprega-se com os verbos ser e estar: essa resolução foi aceite/está aceite por toda a gente. O particípio passado aceitado emprega-se com os verbos ter e haver: ele tinha/havia aceitado isso quase desde a puberdade.

Acho que está tudo dito…

A

O PONTO E A VÍRGULA

Sinceramente, ando alarmado. Aliás, acho que os portugueses não têm consciência do que se está a passar. Vou ver se consigo explicar:
Desde os meus tempos da então chamada “escola primária” que o ponto serve, em tudo o que diga respeito a números, para dividir os milhares, e atribuiu-se à vírgula a aliás nobre missão de dividir as décimas. Por exemplo, que nem era necessário, já que os meus leitores são pessoas inteligentes, se não fossem não liam este blogue: 1.234,56. Perfeito! E acho que continua a ser assim.
Por isso, muito alarmado fiquei quando, hoje de manhã, em plena RTP1, uma comentadora se referia a “três ponto quatro milhões de portugueses” o que, nas minhas contas, perfaz qualquer coisa como 3.400.000.000 ou seja, em língua de gente, três mil e quatrocentos milhões de portugueses. É muito português, caramba!!! E eu a pensar que éramos aproximadamente dez milhões… Olha a minha ignorância.
Aliás, essa senhora já me tem pregado alguns sustos; ainda não há muito tempo, falou numa inflação de “dois ponto cinco por cento”, ou seja, dois mil e quinhentos por cento. Só mais tarde é que percebi que que era ignorância da senhora, talvez dislexia; porque ela estava a ler um jornal onde estava escrito “2,5%”. Ou seja, onde estava vírgula leu ponto.
Mas acho que há tratamento para isso…

"A MINHA PÁTRIA É A LÍNGUA PORTUGUESA"?

Quando, há anos, Portugal aderiu à então Comunidade Económica Europeia, houve, por aí, gente a berrar que íamos perder a nossa identidade. Mais tarde, o “Escudo” foi substituído pelo “Euro” e novas vozes se levantaram, a berrar que o Escudo fazia parte da nossa nacionalidade e que, deixando de haver escudos, era um pouco de Portugal que se perdia. O que não era pouco…
Nunca vi, ou ouvi, esse coro de virgens ofendidas, a reclamar dos autênticos atentados à nossa verdadeira identidade: A LÍNGUA PORTUGUESA”. Pelo contrário: quem devia cuidar dela é quem mais a maltrata. Jornais, rádios, televisão, é um autêntico campeonato de analfabetos em alegre competição. Mas ainda eram poucos. Vai daí, a Câmara Municipal do Porto resolveu, também ela, dar uma ajuda. Como? Colocando, ou mandando colocar, ou permitindo a sua colocação e permanência, este cartaz, que se encontra afixado junto aos parques infantis das praias da Foz.
Com que então, “Proibido entrada”! E que tal “Proibida estacionamento?

UMA CURIOSIDADE…

Sabe donde vem a palavra “cretino“?
Leia o que diz a Wikipédia: “A palavra cretino provém de uma palavra do dialeto franco-provençal, “crétin”, que significava cristão. O seu atual uso resulta do costume de usar a expressão «pobre cristão» ou «cristão», no sentido de «inocente», para designar os loucos e débeis mentais.
Por outras palavras: dizer cretino ou dizer cristão é a mesma coisa.

CONVERSAS DE CAFÉ (II) – O ZERO À ESQUERDA

Intervenientes (para memória futura): O “Quim Trolha”, o “Manel do Pronto-a-vestir” e o “Zé Burocrata”, ao deante designados, respectivamente, por “Quim“, “Manel” e “ZÉ” (todos sem aspas).

Têm o hábito de se encontrar no café, onde discutem de tudo: religião, política e futebol. Não por esta ordem, necessariamente. Tal como a normalidade das conversas dos homens, depois de passarem por estes três temas, ou só por algum ou alguns, as conversas vão descambar em merda. Mas nem sempre…

Desta vez, para não variar, falava-se de futebol. Designadamente, os últimos e vergonhosos resultados do clube da cidade. O Quim estava furioso, e berrava que o treinador era um “zero à esquerda” e que, por isso, devia ser mandado trabalhar. De preferência para trolha, para ver o que custa.

O Zé, sempre atento a deslizes, perguntou:
– Porquê “à esquerda”?
– Ora – respondeu o Quim – porque o zero à esquerda não vale nada.
– E à direita? – insistiu o Zé.
– Olha! À direita, claro que vale. Por exemplo, à direita do “um” vale dez. Fazes cada pergunta… Nem parece que trabalhas na repartição.
– Pois é por trabalhar na repartição que te posso dizer que o zero tanto vale à esquerda como à direita. Isto é, ZERO! O que passa a valer mais, é o “um” que, com o zero colocado à direita, passa a valer dez. O Zero aumenta o valor do número colocado à sua esquerda mas, só por si, não vale nada. Aliás, qualquer dicionário te dirá que o zero é um “numeral cardinal; primeiro número do conjunto de inteiros não-negativos; algarismo que não designa por si só nenhum valor, mas que, no sistema posicional árabe, decuplica o valor dos algarismos que se encontram à sua esquerda“. Ou seja, dizer que o treinador á um “zero à esquerda” é exactamente igual a dizer que é um “zero à direita”. Para poupar palavras, o melhor mesmo é dizer que o ministro – perdão! – o treinador vale zero.


CUIDADO COM A LÍNGUA!!!

Não, não vou falar no (aliás excelente) programa da RTP 1. Mas nunca é demais insistir em que a língua portuguesa é mais traiçoeira que uma víbora. E quando menos esperamos, e por muito cuidado que tenhamos, está uma casca de banana à nossa espera. Que nós pisamos, alegremente.

Vamos aos factos (fatos).
Há pouco, da TVI, uma “voz off” dissertava eloquentemente acerca da “desgraça” que aconteceu ao BPN. Para “encher chouriços”, ia contando a história da instituição bancária e eu, que estava a acabar de comer, comecei a sentir o chamamento do sono. Eis senão quando, o sono foi sacudido. Com voz grave e circunspecta, a “voz off” ia dilucidando que tudo estava a correr no melhor dos mundos, mas “a administração não contava com a entrada, de surpresa, dos investigadores”. Algo parecido. Arrotei duas vezes e perguntei: NÃO CONTAVA COM A SURPRESA???? Então, as surpresas são para se contar com elas???