PAGAMOS?

Eu ainda não percebi por que carga de água, benta ou da outra, vou ter de contribuir, sem que nada me tenha sido perguntado, para a construção de um altar. Já me bastou ter contribuído para a construção de estádios de futebol agora às moscas.Quando é que os nossos autarcas, e outras espécies de governantes, conseguem chegar à conclusão de que o dinheiro do povo não é para gastar em folclores religiosos, que só servem para apunhalar a Constituição? Quando é que o Estado se separa, definitivamente, das confissões religiosas? E não venham, por favor, com o chavão de que se trata de um chefe de estado; os chefes de estado vão a recepções, fazem discursos, promovem acordos bilaterais, mas não celebram missas. Se eu quiser uma missa (lagarto, lagarto…) pago-a; não meto a conta ao Estado.

Por outro lado, a Igreja devia ter vergonha; mas duvido que saiba o que é isso. Com os cofres a abarrotar, basta ver os milhões que caem em Fátima, ainda tem a lata de pedir à Câmara o pagamento da construção de um altar… A isto, eu chamo de parasitismo, porque não me lembro de palavrão pior. Mas parasitismo é, afinal, a verdadeira vocação das religiões em geral, e da ICAR em particular.

OS VAMPIROS



Falar no que aconteceu no Haiti é um exercício de vacuidade patética. Toda a gente sabe o que aconteceu, toda a gente sabe o que aquele católico povo sofre.

O Haiti não precisa de palavras, não precisa de orações. Precisa de ajuda. Muita. Quanta mais melhor, e nunca será suficiente.
Felizmente, a onda solidária não é uma miragem. Inúmeras organizações aceitam toda a espécie de donativos, dinheiro incluído. Várias entidades criaram números telefónicos especiais. Fazendo uma chamada, e nós podemos fazer as chamadas que quisermos, os 60 cêntimos revertem direitinhos para ajudar o sacrificado povo haitiano.
Os vampiros, ou antes, os abutres, porém, não perdem a sua oportunidade. Alimentando-se das desgraças alheias, enchendo o bandulho à custa da morte, vão buscar 12% de IVA a essas chamadas, exibindo um obsceno desprezo pelo martirizado povo. E por quem é solidário.
Ou seja, cobram tanto por um telefonema beneficente como por um telefonema a contratar uma acompanhante de luxo.
Para o Estado, essa figura sinistra que nunca ninguém viu, é a mesma coisa.
Não resisto a transcrever um pedaço desse belo poema do saudoso Zeca Afonso:
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

"FAÇAM ALGUMA COISA PELO HAITI"

Quando, hoje, deparei com esta capa de “O Primeiro de Janeiro” não pude deixar de ficar perplexo. De repente, e por momentos, longos, diga-se de passagem, fiquei convencido de que estava a ler o “Ecclesia” ou outro pasquim religioso. Mas não. O respeitável e centenário “O Primeiro de Janeiro” (PJ) dava à estampa uma mensagem de obscurantismo, de primitivismo e de… hipocrisia.
Quem foi responsável pela página que serve de capa ao PJ pretendia, certamente, que os voluntários da AMI, da Cruz Vermelha e de outras organizações, se lançassem de joelhos a bradar ladainhas, avé-marias e padre-nossos? Ou seria preferível que, como fizeram, lançassem mãos à obra? Diga-me, senhor jornalista, seja o senhor quem for: qual é o resultado prático de uma salvé-rainha? Rezar para quê? Vai ressuscitar os mortos? Vai sarar os feridos? Vai alojar os desalojados? Vai voltar a pôr as casas como estavam? Vai encontrar os desaparecidos? Onde estava o seu deus quando a terra tremeu? vez o senhor, que tem a obrigação de objectividade, constatou algum resultado efectivo de rezas e quejandos? Ou será que o PJ entrou numa deriva proselitista? Espera algum subsídio da ICAR para sobreviver?
Não teria sido preferível pespegar, na primeira página, com numa frase do género “PENSE NO HAITI. FAÇA ALGUMA COISA PELO HAITI”? Acha bem que um jornal com os pergaminhos de “O Primeiro de Janeiro” se dedique a medieval propaganda obscurantista?

O FOGO

Devo confessar o meu deslumbramento!

O fogo-de-artifício da passagem de ano na Madeira é algo digno de se ver. Claro que, para se usufruir de todo aquele espectáculo, é preciso estar numa posição privilegiada. O que, por acaso, era o meu caso. Instalado num hotel situado a meio da encosta, ou antes, daquele imenso e maravilhoso anfiteatro que é a encosta sobranceira ao Funchal, pude desfrutar do fogo disparado quer em terra quer no mar. Garantiram-me 97.182 disparos de fogo-de-artifício. Claro que houve exagero: foram, apenas, 97.180 disparos, como se pode verificar pelo filme, mas isso até nem é relevante. O que releva, neste caso, é o espectáculo, verdadeiramente fabuloso.
Mas… E a magia daquele momento único da passagem do ano, do soar da última badalada do ano que vai embora? Ah… Na Madeira, não existe. Não há “tchin-tchin”, há disparos de fogo. Ninguém salta de cadeiras, ninguém come as 12 “passas”, não há beijos e abraços, ninguém promete deixar de fumar, ninguém decide que “é desta vez que vou deixar o/a amante”, ninguém resolve começar a fazer dieta. O fogo-de-artifício tudo faz esquecer. O fogo-de-artifício é, também, um elemento inibidor de falsas promessas. Ailás, para isso já temos os políticos.
Mas valeu a pena, garanto-vos.

Eu, Deus

ou

A Um Passo da Insanidade

…………..Paulo Braule

No caos de um outro quadrante,
Milhões de anos-luz distante,
Cheguei à noite – ou de dia?
Não sei, pois lá não havia
Estrelas, nem luz, nem céu.
Apenas Eu, solto, ao léu.

Não cabe aqui neste verso
Descrever este Universo
-Desnecessária empreitada,
Pois lá não havia nada,
Nem formas nem conteúdo,
Portanto, Nada era Tudo.

De posse, por Minha Lei,
Com foros de Dono e Rei,
Jazia Eu à vontade.
Depois de uma eternidade
-Ou duas, pra ser exato,
Um som cortou meu barato.

Um som? Direis, boquirroto,
Só ronco, pum ou arroto…
Não existe outro motivo!
Cuidai, sou Deus vingativo.
Por pouco não me exacerbo.
Tal som, sabei, era o Verbo.

E o Verbo vinha da essência
Da Minha própria existência.
Contende vosso sarcasmo…
Cansado desse marasmo
Dispus criar algo novo.
Primeiro a galinha ou o ovo?

Não importa: Era disposto
A deixar tudo a Meu gosto.
Como no caos era escuro,
Pra trabalhar com apuro,
Precisei criar a luz,
E à luz meu mundo compus:

Obrando com euforia,
Fiz terra e céu num só dia
-Não dia assim planetário,
Mas do Meu Divino Horário.
O resto, fiz noutros cinco.
Descanso, agora, do afinco.

Fiz terras, mares e ilhas,
E incontáveis maravilhas,
Sem falar da criatura,
Que fiz a minha figura,
Moldada em barro molhado,
Pra ser por ela louvado.

Dei-lhe, além da cabeça,
Pra que comigo pareça,
Pênis, braços, tronco e pernas,
Bem como as partes internas,
Dos quais Eu não necessito.
Inda assim ficou bonito.

Como era a Mim semelhante
Eu quis chamá-lo Galante,
Mas sendo assim paradão,
Logo mudei para Adão…
Surgiu de Meu desalento
O sopro que o deu alento.

Vivia, embora, sisudo,
Mesmo dispondo de tudo…
Nem o sabor nutritivo
Da carne de todo vivo
Fazia que se alegrasse.
Isto fez com que Eu pensasse:

Sei o que há com Adão
Pois já senti solidão.
Enquanto puxava um ronco,
Tirei-lhe as células-tronco
De uma costela e, com jeito,
Pondo vulva, bunda e peito,

Para que Adão se agradasse,
Criei, c’oa mais linda face,
A Dona Encrenca perfeita.
A cobra, que estava à espreita,
Enquanto Eu me distraia,
Com outra coisa que havia,

Chamou a Eva num canto
E fez com que usasse o encanto
De sua pele louçã
Pra oferecer a maçã
Para o otário do Adão.
O qual comeu de bobão.

Aquilo Me deixou farto!
E criei a dor do parto,
O trabalho e a vestimenta.
A maldita peçonhenta,
Botei de rastros na areia.
E a coisa ficou mais feia:

Expulsei do Paraíso
Aqueles dois sem juízo.
Pro castigo ser mais forte
Criei a pena de morte.
Seus filhos incestuosos
Tornaram-se numerosos

Desrespeitaram Editos
Dos Meus Sagrados Escritos.
Nem mesmo a Mãe Natureza
Foi poupada da avareza,
Deixando Meu belo Mundo
Desfigurado e imundo

E obraram tantos horrores,
Causando males e dores,
Que, ao ver o “reality show”,
Agora nem sei se sou
Verdade ou imaginação
Dos descendentes de Adão.


"PONTOS CARDEAIS"

Não pude evitar… Roubei, mesmo, ao Diário de Notícias.
Mas valeu a pena.
FERNANDA CÂNCIOpor FERNANDA CÂNCIO

Na noite de 24 de Dezembro, a seguir ao telejornal da RTP1, surgiu no ecrã um dístico: “Mensagem de Natal de sua eminência reverendíssima o cardeal-patriarca de Lisboa.” Seguiu-se um monólogo de 8,38 minutos no qual o dito falou sobre “o direito de ser ateu” como novidade desagradável e saudou os crentes das religiões “de deus único” apelando à sua união: “Juntos havemos de contribuir para que Deus não seja excluído do nosso mundo e da nossa história.”

Ora bem. Tenho a ideia de que estas mensagens existem desde que há TV em Portugal. Ou seja, desde o tempo pré-1976 em que a Constituição não impunha a separação entre Estado e confissões religiosas e em que a Concordata assinada por Salazar equiparava padres a funcionários públicos. Mas nunca tinha reparado mesmo nelas – chama-se a isso aculturação. As caricaturas, porém, despertam-nos da letargia. E há poucas coisas mais caricatas que ver alguém a quem dão mais de oito minutos de prime time de borla (e deve ser baratinho, na noite de Natal) com o envelope de “mensagem à nação” que a lei prevê só para Presidente, primeiro-ministro e presidente do parlamento, a fazer propaganda religiosa enquanto clama “ai Jesus que os ateus me/nos querem calar”.

Vou repetir: na noite de 24 a RTP passou propaganda religiosa com a dignidade de uma comunicação de alta figura do Estado. É legal? Legítimo? Aceitável? Através da direcção de programas, a RTP responde: “Ilegal não é.” “Será discutível”, reconhece, mas sublinha: “É costume – a maioria dos portugueses são católicos, portanto.” Vejamos: a presidente do PSD fez uma mensagem vídeo de Natal. Passou onde? Nos telejornais, como notícia. Se o presidente do Benfica, que tem uns milhões de adeptos, quiser fazer uma mensagem antes de um derby, a RTP deixa? E o líder da comunidade muçulmana, pode “falar ao país”? Pois. E porquê? Porque a lei é clara: a propaganda política é proibida fora do tempo de antena, ao qual (que é proibido aos feriados) podem aceder organizações políticas, associações ambientais, desportivas, etc. – mas nunca religiosas; é exigido o pluralismo religioso na programação.

No entanto, a RTP acha, como o cardeal acha, que não há o menor perigo de alguém um dia dizer “acabou”. Do alto dos privilégios a que o concubinato entre o Estado e a sua organização o (e nos) habituou, o cardeal vitimiza-se para condicionar “o inimigo” e manter a reverência. Altura então de tirar da fama o proveito. Não querendo expulsar deuses de lado algum – como expulsar o que me não existe? – , impedir seja quem for de crer no que lhe aprouver ou, como já vi escrito (o ridículo não conhece limite), “abolir o Natal”, exijo dispensa de que me tentem converter ou insultar através dos meios de comunicação social do Estado. Chega de pagode: quero o país que a Constituição me garante, laico e sem eminências. Esperei 34 anos. Já pode ser?

O NOVO SANTO PORTUGUÊS

Refinadamente retirado do “Diário Ateísta”.

Um artigo de Moisés Espírito Santo no «Jornal de Leiria»:

Falo de Nun’Alvares.

Até há pouco, as mulheres ameaçavam os miúdos com «Olha que eu chamo o Dom Nuno!». Um papão.

Os portugueses só o conhecem porque ele derrotou os espanhóis. Em Aljubarrota foram 36.000, para além dos 7 de que se encarregou a padeira.

Invocou Santa Maria – que só será Mãe dos portugueses e não dos espanhóis – venceu. Esta mitologia merece tanto crédito como as lendas de feiticeiras; o problema é que, repetida hoje, significa estagnação cultural. Ideologia rústica fora do tempo.

O povo vai venerar um santo só porque ele derrotou os espanhóis. (Ficamos à espera que seja canonizado o régulo Gungunhana que se sacrificou pela independência da sua pátria, Moçambique…).

O Dicionário de História de Portugal, de Joel Serrão, lemos isto: «[Nun’Alvares] exigia sempre uma disciplina rigorosa e o exacto cumprimento das suas ordens; se isso não sucedia tornava-se bravo como um leão, chegando a matar os cavalos e a ferir os corpos dos descuidados, se eram pessoas de mais pequena condição».

Entenderam: «se eram pessoas de mais baixa condição».

Cavaco Silva, ao integrar a comissão de honra da canonização, disse que «pode ser um exemplo para os portugueses». Eu diria que exemplos desses já temos de sobra: uma Justiça que condena os pobres e absolve os ricos; os trabalhadores pagam impostos enquanto os políticos e suas famílias acumulam milhões com a corrupção, os banqueiros a apropriarem-se dos dinheiros dos clientes…

Preferia ver o responsável máximo da Nação – que, hoje, é amiga de Espanha – a abster-se desses conluios patriotiqueiros e a apontar os espanhóis como exemplo de civismo, criatividade e empreendedorismo.

Não foi pelas qualidades guerreiras do Condestável que o Vaticano o canonizou. Seria porque, já velho e impotente, se recolheu a um convento onde viveu 8 anos ? (Diz o ditado: «O diabo depois de velho fez-se ermitão»).

Não consta que tivesse dado as suas riquezas aos pobres, como se diz agora. Que se dedicasse a tarefas conventuais, milhões de frades o fizeram.

No entanto, o mesmo historiador que citei diz: «Por baixo do hábito de frade, Nun’ Álvares trazia por vezes vestido o seu arnez de combatente».

Estão a ver? Um belicoso disfarçado de frade.

Foi pelo milagre do salpico de azeite quente que saltou para a vista duma mulher de Ourém e que não a cegou?

Porque foi? E porque só agora? Política vaticana.

A beatificação, em 1918, visou combater as Repúblicas portuguesa e espanhola, liberais. Depois o processo foi p’ra gaveta, por cumplicidade com os fascismos ibéricos.

Agora, como o Condestável foi anti-espanhol, saiu dos arquivos para a actual guerrilha entre a Espanha e o Vaticano (este já não tem mão duma nação que foi a mais católica do Globo).

Primeiro foi a lei sobre o aborto. Depois, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo que levou os bispos espanhóis a saírem à rua em manifestação (coisa nunca vista – para combater uma lei democrática).

Bento XVI até veio a Espanha apoiar os bispos num congresso em favor da «família tradicional».

Hoje há o problema das aulas de Religião e Moral que o governo substituiu por Educação Cívica, e o programa da Memória Histórica sobre a guerra civil a que a Igreja – que foi co-responsável nessa guerra – se opõe («para não abrir feridas», diz ela).

Se isto fosse em países como Inglaterra, Alemanha ou França, laicos ou protestantes de longa data, passons como dizem os franceses.

Vindo de Espanha que foi a católica por excelência, no pasaran como diriam os bispos espanhóis. E passaram.

Então… «Tomem lá com o Condestável português que vos derrotou!» (Sendo eles como são, faz-lhes tanta mossa como mostrar-lhes um espantalho).

Esta canonização é a reprodução da de Santa Joana d’Arc, rapariga francesa que derrotou os ingleses invasores da França, em Orléans (1429); mas foi entregue traiçoeiramente aos ingleses que a condenaram à fogueira por heresia (1431).

Só foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920, uma época de fundamentalismo católico… contra a Inglaterra protestante.

E, com este costume medieval de inventar santos e de os pôr a fazer política, é a imagem do Vaticano que fica muito aquém das culturas da modernidade.