Archive for the ‘ATEÍSMO’ Category

Eu, Deus

ou

A Um Passo da Insanidade

…………..Paulo Braule

No caos de um outro quadrante,
Milhões de anos-luz distante,
Cheguei à noite – ou de dia?
Não sei, pois lá não havia
Estrelas, nem luz, nem céu.
Apenas Eu, solto, ao léu.

Não cabe aqui neste verso
Descrever este Universo
-Desnecessária empreitada,
Pois lá não havia nada,
Nem formas nem conteúdo,
Portanto, Nada era Tudo.

De posse, por Minha Lei,
Com foros de Dono e Rei,
Jazia Eu à vontade.
Depois de uma eternidade
-Ou duas, pra ser exato,
Um som cortou meu barato.

Um som? Direis, boquirroto,
Só ronco, pum ou arroto…
Não existe outro motivo!
Cuidai, sou Deus vingativo.
Por pouco não me exacerbo.
Tal som, sabei, era o Verbo.

E o Verbo vinha da essência
Da Minha própria existência.
Contende vosso sarcasmo…
Cansado desse marasmo
Dispus criar algo novo.
Primeiro a galinha ou o ovo?

Não importa: Era disposto
A deixar tudo a Meu gosto.
Como no caos era escuro,
Pra trabalhar com apuro,
Precisei criar a luz,
E à luz meu mundo compus:

Obrando com euforia,
Fiz terra e céu num só dia
-Não dia assim planetário,
Mas do Meu Divino Horário.
O resto, fiz noutros cinco.
Descanso, agora, do afinco.

Fiz terras, mares e ilhas,
E incontáveis maravilhas,
Sem falar da criatura,
Que fiz a minha figura,
Moldada em barro molhado,
Pra ser por ela louvado.

Dei-lhe, além da cabeça,
Pra que comigo pareça,
Pênis, braços, tronco e pernas,
Bem como as partes internas,
Dos quais Eu não necessito.
Inda assim ficou bonito.

Como era a Mim semelhante
Eu quis chamá-lo Galante,
Mas sendo assim paradão,
Logo mudei para Adão…
Surgiu de Meu desalento
O sopro que o deu alento.

Vivia, embora, sisudo,
Mesmo dispondo de tudo…
Nem o sabor nutritivo
Da carne de todo vivo
Fazia que se alegrasse.
Isto fez com que Eu pensasse:

Sei o que há com Adão
Pois já senti solidão.
Enquanto puxava um ronco,
Tirei-lhe as células-tronco
De uma costela e, com jeito,
Pondo vulva, bunda e peito,

Para que Adão se agradasse,
Criei, c’oa mais linda face,
A Dona Encrenca perfeita.
A cobra, que estava à espreita,
Enquanto Eu me distraia,
Com outra coisa que havia,

Chamou a Eva num canto
E fez com que usasse o encanto
De sua pele louçã
Pra oferecer a maçã
Para o otário do Adão.
O qual comeu de bobão.

Aquilo Me deixou farto!
E criei a dor do parto,
O trabalho e a vestimenta.
A maldita peçonhenta,
Botei de rastros na areia.
E a coisa ficou mais feia:

Expulsei do Paraíso
Aqueles dois sem juízo.
Pro castigo ser mais forte
Criei a pena de morte.
Seus filhos incestuosos
Tornaram-se numerosos

Desrespeitaram Editos
Dos Meus Sagrados Escritos.
Nem mesmo a Mãe Natureza
Foi poupada da avareza,
Deixando Meu belo Mundo
Desfigurado e imundo

E obraram tantos horrores,
Causando males e dores,
Que, ao ver o “reality show”,
Agora nem sei se sou
Verdade ou imaginação
Dos descendentes de Adão.


CARTA AO PRESIDENTE

Com a devida vénia, transcrevo o teor de um e-mail caído, há momentos, na minha caixa de correio:



A pedido da nossa associação homóloga do Brasil, envio a carta que foi dirigida ao presidente Lula da Silva.

Saudações ateístas.

Carlos Esperança

ATEA

Caro presidente [Lula da Silva]

o senhor chegou ao poder carregado pela bandeira de uma sociedade mais

justa e mais inclusiva. O uso da palavra “excluídos” no vocabulário

das políticas públicas tem o mérito de nos lembrar que as conquistas

de nossa sociedade devem ser estendidas a todos, sem exceção. Sim,

devemos incluir os negros, incluir as mulheres, incluir os miseráveis,

incluir os homossexuais. Mas, presidente, também é preciso incluir

ateus e agnósticos, e todos os demais indivíduos que não têm religião.

Infelizmente, diversas declarações pessoais suas, assim como

políticas do seu governo, têm deposto em contrário. Ontem mesmo o

senhor afirmou que há “muitos” ateus que falam sobre a divindade da

mitologia cristã quando estão em perigo. Ora, quando alguém diz

“viche”, é difícil imaginar que esteja pensando em uma mulher

palestina que se alega ter concebido há mais de dois mil anos sem pai

biológico. Algumas expressões se cristalizam na língua e perdem toda a

referência ao seu significado estrito com o tempo, e esse é o caso das

interjeições que são religiosas em sua raiz, mas há muito estão

secularizadas. Se valesse apenas a etimologia, não poderíamos nem

falar “caramba” sem tirar as crianças da sala.

Sua afirmação é a de quem vê ?muitos? ateus como hipócritas ou

autocontraditórios, pessoas sem força de convicção que no íntimo não

são descrentes. Nós, membros da Associação Brasileira de Ateus e

Agnósticos, não temos conhecimento desses ateus, e consideramos que

essa referência a tantos de nós é ofensiva e preconceituosa. Todos os

credos e convicções têm sua generosa parcela de canalhas e

incoerentes; utilizar os ateus como exemplo particular dessas

características negativas, como se fôssemos mais canalhas e mais

incoerentes, é uma acusação grave que afronta a nossa dignidade. E os

ateus, presidente, também têm dignidade.

Duas semanas atrás, o senhor afirmou que a religião pode manter os

jovens longe da violência e delinqüência e que ?com mais religião, o

mundo seria menos violento e com muito mais paz?. Mas dizer que as

pessoas religiosas são menos violentas e conduzem mais à paz é

exatamente o mesmo que dizer que as pessoas menos religiosas são mais

violentas e conduzem mais à guerra. Então, presidente, segundo o

senhor, além de incoerentes e hipócritas, os ateus são criminoso e

violentos? Não lhe parece estranho que tantos países tão violentos

estejam tão cheios de religião, e tantos países com frações tão altas

de ateus tenham baixíssimos índices de criminalidade? Não é curioso

que as cadeias brasileiras estejam repletas de cristãos, assim como as

páginas dos escândalos políticos? Algumas das pessoas com convicções

religiosas mais fortes de que se tem notícia morreram ao lançar aviões

contra arranha-céus e se comprazeram ao negar o direito mais básico do

divórcio a centenas de milhões de pessoas. Durante séculos. O mundo

realmente tinha mais paz e menos violência quando havia mais religião?

Parece-nos que não.

A prática de diminuir, ofender, desumanizar, descaracterizar e

humilhar grupos sociais é antiga e foi utilizada desde sempre para

justificar guerras, perseguição e, em uma palavra, exclusão.

Presidente, por que é que o senhor exclui a nós, ateus, do rol de

indivíduos com moralidade, integridade e valores democráticos?

No Brasil, os ateus não têm sequer o direito de saberem quantos são. O

Estado do qual eles são cidadãos plenos designa recenseadores para

irem até suas casas e lhes perguntarem qual é sua religião. Mas se

dizem que são ateus ou agnósticos, seus números específicos lhes são

negados. Presidente, através de pesquisas particulares sabemos que há

milhões de ateus no país, mas o Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística, que publica os números de grupos religiosos que têm

apenas algumas dezenas de membros, não nos concede essa mesma

deferência. Onde está a inclusão se nos é negado até o direito de

auto-conhecimento? Esse profundo desrespeito é um fruto evidente da

noção, que o senhor vem pormenorizando com todas as letras, de que os

ateus não merecem ser cidadãos plenos.

Presidente, queremos aqui dizer para todos: somos cidadãos, e temos

direitos. Incluindo o de não sermos vilipendiados em praça pública

pelo chefe do nosso Estado, eleito com o voto, também, de muitos

ateus, que agora se sentem traídos.

Presidente, não podemos deixar de apontar que somente um estado

verdadeiramente laico pode trazer liberdade religiosa verdadeira,

através da igualdade plena entre religiosos de todos os matizes, assim

como entre religiosos e não-religiosos de todos os tipos, incluindo

ateus e agnósticos. Infelizmente, seu governo não apenas tem sido

leniente com violações históricas da laicidade do Estado brasileiro,

como agora espontaneamente introduziu o maior retrocesso imaginável

nessa área que foi a assinatura do acordo com a Sé de Roma, escorado

na chamada lei geral das religiões.

Ambos os documentos constituem atentado flagrante ao art. 19 da

Constituição Federal, que veda ?relações de dependência ou aliança com

cultos religiosos ou igrejas?. E acordos, tanto na linguagem comum

como no jargão jurídico, são precisamente isso: relações de aliança.

Laicidade, senhor presidente, não é ecumenismo. O acordo com Roma já

era grave; estender suas benesses indevidas a outros grupos não

diminui a desigualdade, apenas a aumenta. Nós não queremos

privilégios: queremos igualdade e o cumprimento estrito da lei, e

muitos setores da sociedade, religiosos e laicos, têm exatamente esse

mesmo entendimento.

Além de violar nossa lei maior, a própria idéia da lei geral das

religiões reforça a política estatal de preterir os ateus sempre e em

tudo que lhes diz respeito como ateus. Com que direito o Estado que

também é nosso pode ser seqüestrado para promover qualquer religião em

particular, ou mesmo as religiões em geral? Com que direito os

religiosos se apossam do dinheiro dos nossos impostos e do Estado que

também é nosso para promover suas crenças particulares? Religião não

é, e não pode jamais ser política pública: é opção privada.

O Estado pertence a todos os cidadãos, sem distinção de raça, cor,

idade, sexo, ideologia ou credo. Nenhum grupo social pode ser

discriminado ou privilegiado. Esse é um princípio fundamental da

democracia. Isso é um reflexo das leis mais elementares de

administração pública, como o princípio da impessoalidade. Caso

aquelas leis venham de fato integrar-se ao nosso ordenamento jurídico,

os ateus se juntarão a tantos outros grupos que irão ao judiciário

para que nossa lei não volte ao que era antes do século retrasado.

Presidente, será que os ateus não merecem inclusão nem em um pedido de

desculpas?



Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos

www.atea.org.br

Contato: Daniel Sottomaior (11) 9388-4746

D. CARLOS E O ATEÍSMO

Exmo. Senhor

Director do Correio da Manhã

direccao@correiomanha.pt

Lisboa

Senhor Director,

Na sequência do artigo de opinião do senhor bispo Carlos Azevedo, ontem publicado na página 2 do Correio da Manhã, exclusivamente de ataque à Associação Ateísta Portuguesa (AAP), sei que não preciso de invocar direito de resposta porque seria ofensivo do pluralismo do jornal que V. Ex.ª dirige.

Limito-me, pois, a solicitar a publicação da posição ateísta e a apresentar-lhe os meus cumprimentos.

Carlos Esperança

P.S. – Com identificação da AAP, o texto segue também em anexo, para evitar que a formatação se altere.

Assunto: A canonização de Nuno Álvares Pereira

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) contesta o artigo do senhor bispo católico, Carlos Azevedo, no Correio da Manhã, com acusações cuja legitimidade respeita mas que francamente repudia.

Regozijamo-nos, naturalmente, com a consideração e respeito que o senhor bispo diz ter pelo ateísmo, afirmação surpreendente face à excomunhão papal, às perseguições da Igreja católica e à forma como ele próprio se refere à AAP. Recordamos-lhe, a propósito, a peregrinação a Fátima de 13 de Maio de 2008, «contra o ateísmo» e a convicção do senhor patriarca José Policarpo: «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade».

Insólita num bispo católico, registamos a referência à «debilidade de todos os sinais da presença de Deus», numa arrojada manifestação de agnosticismo mitigado.

Mas o senhor bispo percebeu mal, ou deturpou, a posição da AAP em relação à canonização de Nuno Álvares e à lamentável cobertura que o Presidente da República, o Presidente da AR, membros do Governo e deputados deram à canonização, incompatível com um Estado laico onde é legítimo exaltar as virtudes do herói mas inaceitável rubricar os milagres de um santo.

Diz o senhor bispo Carlos Azevedo que «afirmar que Nuno Álvares Pereira foi canonizado graças a um milagre, que ridicularizam, é desonesto», como se fosse a Associação Ateísta a inventar o milagre, e não a Igreja católica, e como se o milagre não fosse condição sine qua non para a canonização. Que o senhor bispo se envergonhe do milagre obrado no olho esquerdo de D. Guilhermina, queimado com óleo fervente de fritar peixe, à custa de duas novenas e um ósculo numa imagem do Condestável, é um problema seu.

O senhor Patriarca Policarpo preferia a canonização por decreto, como afirmou publicamente, à exigência de Bento XVI que, na opinião do teólogo Hans Küng, está a devolver a Igreja à Idade Média, mas quem manda é o antigo prefeito da Sagrada Congregação da Fé (ex-Santo Ofício).

Assim, ignorando os juízos de valor e os ataques do senhor bispo Carlos Azevedo, a AAP reitera o seguinte:

– O Estado laico é a condição essencial de uma democracia e, na opinião da AAP, fica irremediavelmente comprometido com a participação dos altos dignitários do Estado, em nome de Portugal, numa cerimónia de canonização, estabelecendo uma lamentável confusão entre as funções de Estado e os actos pios do foro individual, prestando-se ao reconhecimento estatal da superstição;

– A AAP entende que o prestígio do Condestável não se dilata com o alegado milagre e que, se deus existisse, podia mais facilmente ter evitado os salpicos de óleo que queimaram o olho esquerdo de D. Guilhermina, enquanto fritava peixe, do que ter de a curar para o beato virar santo;

– A AAP duvida da capacidade de um guerreiro morto, apesar de ilustre, para actuar como colírio e duvida de D. Guilhermina, que se lembrou de recorrer à intercessão de um herói, sem antecedentes no ramo dos milagres, em vez de procurar um oftalmologista, e

– Finalmente, a AAP repudia que a peregrinação a Roma se faça a expensas do Estado português.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 18 de Abril de 2009

Carlos Esperança

(Presidente da Direcção)

ENTREVISTA COM MICHEL ONFRAY

Entrevista o filósofo e escritor Michel Onfray “A Igreja Católica sempre legitimou a violência dos Estados”

“A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável.Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista”


<!– –> Michel Onfray

A polêmica sobre a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou os médicos que realizaram o aborto no episódio da menina estuprada pelo pai ganhou repercussão internacional. Para o filósofo francês Michel o­nfray, decisão é coerente com pensamento oficial da Igreja Católica de hoje. “A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável. A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista”, critica o­nfray.

O filósofo francês Michel o­nfray, iniciador da Universidade Popular de Caen , autor de 51 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma coleção de 12 CDs, aposta na Filosofia como meio de vencer o lado irracional do ser humano: “Apesar do sofrimento da existência humana, que sempre existiu e existirá, é preciso viver em pé, com dignidade e não ajoelhado. O filósofo tem a obrigação de construir um movimento universal de elevação da condição humana”.

Por ocasião da sua passagem por Bordeaux, para o lançamento de seu último livro, “Contra-história da Filosofia: as radicalidades existenciais” , Michel o­nfray nos concedeu uma entrevista para Marta Fantini sobre o lastimável episódio do aborto terapêutico, ocorrido em Recife.

Marta Fantini: O sofrimento de uma família, que deveria permanecer na esfera privada, acabou se tornando um evento midiático de repercursão internacional, devido a uma punição da Igreja Católica que parece sair das “entranhas da Idade Média”: a excomunhão.

Michel o­nfray: A decisão parece da Idade Média, mas ela está inscrita no corpus do pensamento oficial da Igreja de hoje. Não se pode ignorá-la: a Igreja diz claramente que o aborto é proibido, que é um pecado e o clero aplica o que a Igreja professa. Na minha opinião, não há incoerência entre a excomunhão, que é insignificante, e a ideologia da Igreja, que é reacionária, conservadora e insuportável.

A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista. Hitler nunca foi excomungado assim como os ideólogos do nazismo e os membros do partido. A Igreja somente demonstra o que ela foi e é, colocando-se sempre ao lado dos fortes, dos poderosos, da colaboração. Ela não resiste. Ela não se preocupa com os pobres. Ela não demonstrou misericórdia a este ser frágil que foi violentado pelo padrasto. Ela não apoiou esta menina. Ao contrário, ela ainda a afligiu, considerando-a até culpada e responsável.

Eu li na imprensa francesa que, para o bispo de Recife, o estrupo é menos grave que o aborto. Quando alguém lhe perguntou porque o padastro não foi excomungado, ele respondeu que “dar a morte é mais grave”. Dar a morte a um feto é mais grave que o estupro e a pedofilia? O feto é um ser potencialmente vivo que está programado para se tornar uma pessoa, mas não é uma pessoa. Antes que se torne um ser humano, pode-se praticar o aborto, e sobretudo, nestas condições, parece-me um ato evidente.

MF : Como explicar esta insistência em preservar a vida se, por outro lado, a Igreja sempre legitimou a violência dos Estados?

MO: Ela pretende defender a vida, mas ela não a defende. o­nde está a dignidade nesta aventura? O que se pode chamar de vida? o­nde ela se encontra? Numa manifestação biológica? Neste caso a simples ejaculação, na hora da masturbação, é um genocídio! É preciso parar com isso. O espermatozóide é matéria viva. Neste caso, ela deveria excomungar todos os homens que se masturbam, pois os espermatozóides vão terminar no fundo de um vaso sanitário e não na destinação prevista que é a fecundação do óvulo! É um delírio total esta posição da Igreja que se diz defensora da vida e, ao mesmo tempo, justifica a pena de morte no “Catecismo da Igreja Católica”.

Eu até ganhei uma caixa de champanhe numa aposta com alguém que não acreditava que isso fosse possível! No “Catecismo da Igreja Católica” está escrito, explicitamente, que, em alguns casos extremos, pode-se aplicar a pena de morte. Sinto muito, é uma questão de princípio: não se defende a pena de morte quando se é cristão. E ainda querem que acreditemos que defendem a vida quando se defende, ao mesmo tempo, a pena de morte?

A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hirocsima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.

MF: O que a imprensa francesa não citou, nos inúmeros artigos sobre este trágico evento, é que a Igreja, no Brasil, enfrenta uma queda de braço com o Estado. A República democrática brasileira se moderniza: a pesquisa sobre as células troncos foi liberada, a legalização do aborto está em discussão, a população se beneficia da distribuição gratuita de preservativos e pílulas do dia seguinte. Como explicar que esta Igreja, que não consegue acompanhar a evolução dos costumes morais e o progresso da Ciência, está se tornando cada vez mais fundamentalista?

MO : A questão não é o que ela está se tornando, o problema é que ela sempre foi e é fundamentalista. Acredito que, ultimamente, a Igreja está tentando colocar as coisas no seu eixo original. Com o recente retorno do islamismo, no mercado intelectual, ideológico e espiritual, ela diz que nem tudo está perdido para as religiões. Ela constata que, finalmente, ainda existem pessoas que acreditam em Deus e que em nome de Alá são capazes de morrer por ele, de lutar por ele, de viver por ele, que se comportam, na existência de uma vida cotidiana, de acordo com os preceitos que teriam sido ditados por ele. Penso que a Igreja está numa lógica de reconquista e que é o momento ideal de avançar seus peões. O papa Bento XVI, começou a avançá-los, por exemplo, com a reabilitação dos bispos negacionistas. Quando percebeu que esta estratégia estava provocando muito debate na imprensa internacional, ele recuou.

Acredito que há uma espécie de desejo de reconquistar a fé em escala planetária. Eu li no Le Figaro, o único jornal disponível no hotel, uma página inteira consagrada ao Papa e à carta que ele enviou aos bispos. Ele cita que o desejo de São Pedro era fazer proselitismo. O cristianismo e o número 1 dos cristãos, Bento XVI, concluem: se o Islã faz proselitismo e obtem resultados positivos, porque a Igreja Católica também não o faria? É uma maneira de reconquistar o terreno perdido, em todos os países.

É o que aconteceu na Itália. Recentemente, houve uma eleição ultra politizada, uma espécie de referendum sobre a questão do aborto, do reembolso deste tipo de intervenção, de células troncos, etc. A Igreja pediu a abstenção. Uma boa tática que se revelaria na hora da contagem dos votos, uma prova que a abstenção seria a Igreja, com um número considerável de vozes. A era de João Paulo II, da mediatização do tipo «rock star» e das viagens planetárias, terminou. O ecumenismo, da época em que se dançava com os aborígines, na Austrália, como pretexto de comunhão com o sagrado, tudo isso acabou. O único objetivo da Igreja atual é o retorno à antiga boa fé católica apostólica romana. Neste período de niilismo generalizado, ela se impõe uma posição mais rígida. A suspensão da excomunhão dos bispos negacionistas, o que se passou na Itália e no Brasil, são, para mim, sinais convergentes.

MF : Com a crise, o fundamentalismo pode piorar no seio das três grandes religiões monoteístas? A micro resistência, à qual você sempre faz alusão, não seria uma esperança como foi a Teoria da Libertação ou os Movimentos Pastorais na América Latina?

MO: As microresistências são a única solução possível. Eu penso que há cristãos que não estão de acordo com esta opção de direita à extrema direita da Igreja. Na “Golias”, uma excelente revista, publicada por católicos franceses de esquerda, pode-se encontrar artigos extremamente inteligentes. No último número, por exemplo, publicaram análises interessantes sobre o caso do bispos negacionistas. Há sempre uma categoria de católicos de esquerda com a qual se pode contar. Há sempre alguém que não aceita o inaceitável, que não se submete. Há esta esperança e há também a esperança no avanço do combate ateu.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra as obras sobre o ateísmo fazem muito sucesso. «O Tratado da Ateologia» foi best seller na Austrália, Espanha e Itália, quer dizer, se fizermos avançar o combate ateu, obteremos soluções. Evidentemente, sem repetir o erro do «ser ateu» do século XIX: anticlerical , mas fabricante de uma espécie de igreja atéia, de clero ateu. Seria o pior que poderia acontecer, ou seja, querer destruir, utilizando os mesmos métodos. É preciso avançar argumentos, debater questões como as dos tratamentos paliativos, da eutanásia… A França está com muito atraso em relação a estes assuntos. Porque a eutanásia não avança, mas sim os tratamentos paliativos? Porque o lobby cristão é potente para interferir nas decisões dos deputados e dos senadores e impedir que a lei sobre a eutanásia seja votada.

MF: Seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas e a venda de seus CDs atingiram 50 mil exemplares. Parece-me um número impressionante, em se tratando de conteúdo filosófico. Este sucesso seria a prova que a Filosofia preenche um vazio deixado pela religião que já não satisfaz a busca espiritual do ser humano do século XXI ?

MO: Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.

O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.

Marta Fantini é produtora e apresentadora do programa “Le Brésil en Noir & Blanc”, na Rádio Campus Bordeaux, França.

"TORCE PALAVRAS"

Assumo que não pedi autorização ao Ludwig Krippahl para publicar este delicioso e preclaro texto; mas parto do princípio de que não se sentirá ofendido por difundir as suas ideias. Aliás, acho que é isso que se deve fazer às ideias esclarecidas e esclarecedoras: divulgá-las o mais possível.

A teologia safa-se pelo domínio da ambiguidade, e Anselmo Borges deu uma bela lição disto no DN de dia 20. A Associação Humanista Britânica está a organizar uma campanha publicitária a favor do ateísmo, com o slogan «Deus provavelmente não existe. Agora deixe de se preocupar e goze a vida» (1). Anselmo Borges diz que é uma ideia interessante porque obriga «as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.» (2)

Questões são perguntas. Como é que surgiu o universo? O que nos causou? Como podemos saber? O Anselmo torce o sentido de “questão” e mete uma resposta pela porta do cavalo. Porque Deus não é uma questão. O deus do Anselmo é apenas uma de muitas tentativas de responder estas perguntas. E levanta uma questão importante. Porque é que há de ser o deus dele e não um dos outros? Para responder a isto, a teologia torce as palavras conforme dá jeito.

«Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição – crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.»

Crer ou não crer é uma escolha. Mas a palavra “razões” é usada aqui de duas formas subtilmente diferentes. Quando somos razoáveis baseamo-nos em razões partilhadas. Quando usamos razões só nossas não somos razoáveis aos olhos dos outros. É razoável largar o pote se está demasiado quente mas não por me dar na gana ou por medo que dê azar. As razões para não crer em Deus vêm do que observamos à nossa volta. Cada criança que fica sem pernas por pisar uma mina dá uma razão forte para rejeitar o tal ser benevolente que lhe podia ter segredado “cuidado, aí há minas”*. A imensa indiferença do universo perante o nosso sofrimento torna razoável a descrença. Mas a crença em Deus, como o próprio Anselmo admite, vem apenas de desejos pessoais como a esperança e a exigência de um sentido último, e não é por desejos que se forma uma opinião razoável acerca do que existe ou não existe.

Depois, o amor. «Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres» (mas não às crianças que pisam minas).

Usamos a palavra “amor” para referir o que sentimos por alguém ou para referir esse alguém. Esta ambiguidade é ideal para a teologia. No primeiro sentido “Deus é amor” dá uma evidência directa que Deus existe. Todos sentimos amor e os crentes amam Deus. O sentimento existe. E torcendo a palavra para o outro lado concluem que o objecto desse amor também existe. É um disparate atraente. É disparate porque o objecto do nosso amor pode nem se parecer com aquilo que julgávamos amar. Mas é atraente porque preferimos esquecer essas experiências dolorosas e fingir que não é assim. O amor não só cega como enfraquece as ideias.

E quando torcem o amor com a ciência têm uma combinação perfeita. «A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente.» Ou seja, a existência de Deus não é ciência por não ser de cariz experimental. E Deus é amor, que sabemos não ser científico. Mas isto só encaixa torcendo as palavras. Porque o amor é experimental; é experimentando-o que o conhecemos e é pela experiência quotidiana que sabemos quem amamos e quem nos ama. E o amor só não é científico porque nos falta uma teoria detalhada. Falta-nos as palavras para modelar o amor. Falta-nos o logos do amor.

Mas isso é o que a teologia finge ser. O logos de Deus que, segundo dizem, é amor. A teologia é a teoria do amor inventada por celibatários que baralham as palavras e negam a experiência. Não admira que mesmo ao fim de tantas voltas não tenham chegado a lado nenhum.

*A desculpa para isto é a vontade livre. É um argumento válido, e aceito-o. Mas apenas nos casos em que a própria criança pôs lá a mina.

1- CNN, 23-10-08, Atheists Run Ads Saying God ‘Probably’ Doesn’t Exist
2- Anselmo Borges, DN, 20-12-08, “Provavelmente Deus não existe”

Em simultâneo no Que Treta!

O MUNDO SERIA PACÍFICO DE TODOS FÔSSEMOS ATEUS

Com os meus agradecimentos ao blogue “IN GO(L)D WE TRUST

BUENOS AIRES, 29 NOV (ANSA) – O escritor português José Saramago declarou à imprensa argentina que “o mundo seria mais pacífico se todos fôssemos ateus”.
Os deuses foram inventados porque “precisávamos deles”, já que “tememos a morte”, acrescentou o prêmio Nobel de Literatura em declarações à revista Ñ de Buenos Aires.
“Não deveria surpreender por que os fãs do Real Madrid não podem nem pensar nos torcedores do Barcelona. Se isso acontece com algo tão rudimentar quanto o futebol, o que não ocorreria se eu creio em um deus e não posso suportar a essência de alguém que acredita em outr
o”, questionou Saramago.
Esse tipo de confronto “é a prova de que no fundo somos bastante estúpidos, com todo o respeito. Por isso às vezes digo que o mundo seria mais pacífico de todos fôssemos ateus”. (ANSA)