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O LIVRE ARBÍTRIO (III)

Não concordo com os ateus ou agnósticos que se recusam ou a visitar uma igreja ou a frequentar espaços de religião e espiritualidade na Internet. Porque – e esta é a minha opinião, naturalmente – é, precisamente, a visitar esses espaços, físicos ou virtuais, que conseguimos argumentos contra as razões dos crentes.
Que fique bem claro que não quero entrar em dualismos maniqueístas; respeito as crenças de cada um, e exijo que respeitem a minha descrença. Mas não alinho na falácia “a religião não se discute”. Discute, pois! Por muito que custe aos proselitistas.
Tudo isto a propósito (ainda) do «livre arbítrio».
Num fórum que frequento, perguntei o que entendiam, os religiosos, por “livre arbítrio”. As respostas variaram consoante os gostos e as cores religiosas, mas uma delas chamou-me a atenção: “É a faculdade que Deus nos deu de traçarmos o nosso destino”.
Disparate sobre disparate, obviamente. Mas é assim que as religiões manipulam as mentes…
De acordo com o dicionário da Porto Editora (passe a publicidade), destino é

1. poder superior à vontade do homem que se supõe fixar de maneira irrevogável o curso dos acontecimentos; fatalidade;

2. sucessão de factos que constituem a vida de alguém e que se crê serem independentes da sua vontade; fado;
etc.

Parece, pois, que ninguém pode traçar o destino, quando este é fixado de maneira irrevogável por um poder superior. E ninguém pode determinar factos que são independentes da sua vontade.
Acontece que se esses factos, embora independentes da nossa vontade, são do nosso agrado, chamamos-lhes sorte; se é ao contrário, tomam o nome de azar. Então, parece indiscutível que livre arbítrio é incompatível com destino. Mais: são antagónicos. Ou um, ou outro. Os dois, nunca!
Mas aceito opiniões…
Depois, os religiosos nem são capazes de pensar nesta coisa comezinha: ao falar em livre arbítrio estão a pôr em causa a omnisciência divina.
Vamos lá a ver: Deus é omnisciente. Deus sabe o passado, o presente e o futuro. Principalmente, o futuro. Pelo menos, é o que dizem (também, se assim não fosse não precisávamos de Deus para nada).
Vou tentar expor o meu raciocínio: você, leitor, já sabe aonde vai passar as próximas férias? Claro que não. Se for um verdadeiro crente, fervoroso e temente a Deus, responderá: “Deus é que sabe” ou “Deus sabe se lá chegarei”. É assim mesmo. Ou seja, Deus, neste momento, já sabe qual o destino e data das suas férias. Você não sabe, mas Deus já. Óptimo. Isto quer dizer que os seus preparativos para as próximas férias – planeamento, escolha do local, data – serão, sempre, subordinados àquilo que Deus já sabe. Ou já destinou, se quiser. Você vai para onde e quando “Deus quiser”.
Você não costuma dizer “amanhã vou ao cinema, se Deus quiser”?
Onde está o seu livre arbítrio?

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O "LIVRE ARBÍTRIO" (2)

Deus é omnipotente e omnisciente. Parece que as duas prerrogativas são contraditórias, mas lá iremos.
Vamos supor que eu, hoje, decidi ir ao cinema. Ainda é de manhã, mas eu gosto de planear as coisas com antecedência. Repare-se: eu decidi, mas não quer dizer que vá. Segundo o crente nosso conhecido, Deus é que sabe. Ou seja: nesta manhã, Deus já sabe se eu, logo à noite, vou ou não ao cinema. Começamos, aqui a pôr o livre arbítrio em causa. Se Deus já sabe, tal significa que a minha decisão será tomada de acordo com o que Deus já sabe (na verdade, o meu primo Alfredo telefonou-me a dizer que precisava de falar comigo acerca de um assunto importante, mas só estava disponível à noite. Lá se foi a sessão de cinema!). Mas Deus já sabia que eu não iria ao cinema. E a verdade é que Deus, com a sua omnipotência, não dispôs as circunstâncias de molde a eu poder ir ao cinema. Pelo contrário, elas foram dispostas de modo a eu cumprir aquilo que ele, Deus, sabia. Então, onde está o meu livre arbítrio?

Deus criou Adão (e Eva, mas esta não interessa, de momento, para o nosso raciocínio). Sendo omnisciente, Deus sabia que Adão, uma vez criado, iria comer o fruto proibido. Mesmo assim, Deus criou Adão nessa perspectiva, ou seja, atribuiu-lhe uma personalidade que o iria levar, irremediavelmente, ao pecado. Por outras palavras, Deus criou Adão de modo a que o seu (do Adão) comportamento coincidisse com aquilo que Deus sabia. De tal modo que, inclusivamente, criou (já tinha criado!) uma serpente falante – julgo que a única no Paraíso e em toda a “criação”. Ou seja, Deus estabeleceu todo um cenário que conduzisse os factos àquilo que sabia. A cereja em cima do bolo teve a forma de Eva, a maldita – como passaram a ser todas as mulheres, seres inferiores, ainda hoje assim consideradas pelas diversas religiões. Ou seja, Deus criou Adão para que pecasse e, depois, castigou-o!
É lícito, parece-me, perguntar: podia, Deus, ter alterado o curso dos acontecimentos? Podia Deus ter criado um Adão que não comesse o fruto proibido? A resposta só pode ser NÃO. Porque se o fizesse, tal acto iria colidir frontalmente com aquilo que Deus sabia, ou seja, que Adão iria desobedecer às suas ordens. O que desde logo põe em causa a omnipotência de Deus, perante a sua própria omnisciência. A não ser, claro, que Deus soubesse que Adão não iria pecar mas, nesse caso, os factos iriam desenrolar-se de acordo com esta hipótese de sapiência divina. Ou seja, de que Adão não iria pecar. Então, onde está o livre arbítrio? O pobre Adão nem sequer podia resistir à tentação, pois Deus sabia que ele iria ceder – e assim teve que ser!

Pela parte que me diz respeito, fico elucidado. Como já li algures, quando um ladrão berra “a bolsa ou a vida” está a dar-nos o livre arbítrio.

NOTA: este raciocínio foi elaborado partindo da hipótese, académica e absurda, de que Deus existe. O que é manifestamente improvável.

O "LIVRE ARBÍTRIO" (2)

Deus é omnipotente e omnisciente. Parece que as duas prerrogativas são contraditórias, mas lá iremos.
Vamos supor que eu, hoje, decidi ir ao cinema. Ainda é de manhã, mas eu gosto de planear as coisas com antecedência. Repare-se: eu decidi, mas não quer dizer que vá. Segundo o crente nosso conhecido, Deus é que sabe. Ou seja: nesta manhã, Deus já sabe se eu, logo à noite, vou ou não ao cinema. Começamos, aqui a pôr o livre arbítrio em causa. Se Deus já sabe, tal significa que a minha decisão será tomada de acordo com o que Deus já sabe (na verdade, o meu primo Alfredo telefonou-me a dizer que precisava de falar comigo acerca de um assunto importante, mas só estava disponível à noite. Lá se foi a sessão de cinema!). Mas Deus já sabia que eu não iria ao cinema. E a verdade é que Deus, com a sua omnipotência, não dispôs as circunstâncias de molde a eu poder ir ao cinema. Pelo contrário, elas foram dispostas de modo a eu cumprir aquilo que ele, Deus, sabia. Então, onde está o meu livre arbítrio?

Deus criou Adão (e Eva, mas esta não interessa, de momento, para o nosso raciocínio). Sendo omnisciente, Deus sabia que Adão, uma vez criado, iria comer o fruto proibido. Mesmo assim, Deus criou Adão nessa perspectiva, ou seja, atribuiu-lhe uma personalidade que o iria levar, irremediavelmente, ao pecado. Por outras palavras, Deus criou Adão de modo a que o seu (do Adão) comportamento coincidisse com aquilo que Deus sabia. De tal modo que, inclusivamente, criou (já tinha criado!) uma serpente falante – julgo que a única no Paraíso e em toda a “criação”. Ou seja, Deus estabeleceu todo um cenário que conduzisse os factos àquilo que sabia. A cereja em cima do bolo teve a forma de Eva, a maldita – como passaram a ser todas as mulheres, seres inferiores, ainda hoje assim consideradas pelas diversas religiões. Ou seja, Deus criou Adão para que pecasse e, depois, castigou-o!
É lícito, parece-me, perguntar: podia, Deus, ter alterado o curso dos acontecimentos? Podia Deus ter criado um Adão que não comesse o fruto proibido? A resposta só pode ser NÃO. Porque se o fizesse, tal acto iria colidir frontalmente com aquilo que Deus sabia, ou seja, que Adão iria desobedecer às suas ordens. O que desde logo põe em causa a omnipotência de Deus, perante a sua própria omnisciência. A não ser, claro, que Deus soubesse que Adão não iria pecar mas, nesse caso, os factos iriam desenrolar-se de acordo com esta hipótese de sapiência divina. Ou seja, de que Adão não iria pecar. Então, onde está o livre arbítrio? O pobre Adão nem sequer podia resistir à tentação, pois Deus sabia que ele iria ceder – e assim teve que ser!

Pela parte que me diz respeito, fico elucidado. Como já li algures, quando um ladrão berra “a bolsa ou a vida” está a dar-nos o livre arbítrio.

NOTA: este raciocínio foi elaborado partindo da hipótese, académica e absurda, de que Deus existe. O que é manifestamente improvável.

O "LIVRE ARBÍTRIO"

Quando confrontamos um crente com o facto de Deus permitir as maldades que todos os dias vemos no mundo, quando seria muito fácil a esse mesmo Deus permitir, apenas, o nascimento de homens bons, invariavelmente recebemos uma resposta deste género: “Deus não nos fez robôs; Deus deu-nos o livre arbítrio. Ou seja, e de acordo com o que os crentes entendem por livre arbítrio, Deus deu-nos a possibilidade de fazermos o que quisermos.
Nada mais falso. Porque o livre arbítrio pura e simplesmente não existe. Ou, pelo menos, não existe da forma como as religiões nos querem fazer crer.
Eu posso, hoje, decidir entre várias opções: ler um livro, ver um filme, ouvir música, ir ao cinema ou ao teatro… eu tenho o livre arbítrio para optar de acordo com o que mais
me convier, o que me der mais jeito, enfim, e como se diz correntemente, com o que me der na real gana. Mas, posta assim, a questão torna-se redutora, pois as nossas acções são muito mais abrangentes e não se limitam ao que acima se expõe. E é nessa abrangência que começam a aparecer as limitações ao livre arbítrio. Será que eu posso decidir livremente caminhar ao longo de uma linha de comboio sabendo que essa linha tem muito movimento? Se eu me quiser suicidar, a resposta é sim; mas se eu não estiver disposto a ir desta para melhor, então definitivamente a resposta é um rotundo NÃO. Logo, não tenho livre arbítrio.
Por outro lado, e porque grande parte das minhas acções interage com a sociedade em que estou integrado, devo submeter-me a leis, regulamentos, instruções, posturas camarárias – para já não falar do polícia que, com a delicadeza a depender da forma como acordou, me informa que o meu carro não pode estar ali estacionado.
Mas não é esse livre arbítrio que Deus nos deu – argumentará o crente. Deus deu-nos o livre arbítrio de o adorar, de fazer o bem, de cumprir os mandamentos, de… De quê? E o que acontece se não fizermos o que Deus quer? “Pois bem, seremos castigados” – responderá o nosso imaginário (mas não muito) crente.
Então, onde está o livre arbítrio?

O "LIVRE ARBÍTRIO"

Quando confrontamos um crente com o facto de Deus permitir as maldades que todos os dias vemos no mundo, quando seria muito fácil a esse mesmo Deus permitir, apenas, o nascimento de homens bons, invariavelmente recebemos uma resposta deste género: “Deus não nos fez robôs; Deus deu-nos o livre arbítrio. Ou seja, e de acordo com o que os crentes entendem por livre arbítrio, Deus deu-nos a possibilidade de fazermos o que quisermos.
Nada mais falso. Porque o livre arbítrio pura e simplesmente não existe. Ou, pelo menos, não existe da forma como as religiões nos querem fazer crer.
Eu posso, hoje, decidir entre várias opções: ler um livro, ver um filme, ouvir música, ir ao cinema ou ao teatro… eu tenho o livre arbítrio para optar de acordo com o que mais
me convier, o que me der mais jeito, enfim, e como se diz correntemente, com o que me der na real gana. Mas, posta assim, a questão torna-se redutora, pois as nossas acções são muito mais abrangentes e não se limitam ao que acima se expõe. E é nessa abrangência que começam a aparecer as limitações ao livre arbítrio. Será que eu posso decidir livremente caminhar ao longo de uma linha de comboio sabendo que essa linha tem muito movimento? Se eu me quiser suicidar, a resposta é sim; mas se eu não estiver disposto a ir desta para melhor, então definitivamente a resposta é um rotundo NÃO. Logo, não tenho livre arbítrio.
Por outro lado, e porque grande parte das minhas acções interage com a sociedade em que estou integrado, devo submeter-me a leis, regulamentos, instruções, posturas camarárias – para já não falar do polícia que, com a delicadeza a depender da forma como acordou, me informa que o meu carro não pode estar ali estacionado.
Mas não é esse livre arbítrio que Deus nos deu – argumentará o crente. Deus deu-nos o livre arbítrio de o adorar, de fazer o bem, de cumprir os mandamentos, de… De quê? E o que acontece se não fizermos o que Deus quer? “Pois bem, seremos castigados” – responderá o nosso imaginário (mas não muito) crente.
Então, onde está o livre arbítrio?