A JUNTA MÉDICA – PORTUGAL NO SÉC. XXI

Uma amiga minha foi vítima, há anos, de um estúpido acidente de viação. Desse acidente resultou o esmagamento e posterior amputação de uma das pernas. Concluídos os tratamentos e submetida à competente Junta Médica, foi-lhe atribuído um grau de invalidez superior a 60%.
A lei prevê que, em casos de invalidez superior a 60%, o cidadão usufrua de uma série de direitos: por exemplo, isenção de alguns impostos na compra de carro (neste caso até teria de ser um carro adaptado), na compra de casa, etc.
Só que – podem pasmar – de cada vez que pretender usufruir de um desses direitos, tem de ser submetida a Junta Médica! Não é, pois, difícil, imaginar este diálogo entra a minha amiga (MA), o Presidente da Junta (PJ), o médico da esquerda (ME) e o médico da direita(MD) – antes que me chamem comunista: o médico da direita (MD) e o médico da esquerda(ME):
– MA:
Boa tarde.
– PJ,MD e ME (um de cada vez, e não necessariamente por esta ordem):
Boa tarde.
– PJ:
Então, o que a traz por cá?
– MA:
Pois… eu queria comprar uma casa, e disseram que era preciso um atestado de incapacidade passado pela Junta…
– ME:
E, é.
– MA:
Mas eu já fui submetida a uma Junta quando terminei os tratamentos… Deram-me incapacidade superior a 60%, devido a amputação da perna.
– MD:
Tudo bem, mas repare: ainda há dias esteve aqui um doente que tinha fracturado o braço, e ficou incapacitado. Quando ficou curado, deixou de ter incapacidade, está a perceber?
– MA:
Estou, mas amputação é amputação. Não me parece viável que a perna volte a crescer…
– MD:
Nunca se sabe, minha senhora; nunca se sabe… A Deus Nosso Senhor, nada é impossível.
O PJ, que ainda tinha de ir buscar os netos ao infantário, decidiu intervir:
– PJ:
Minha senhora, por favor deite-se naquela marquesa e desça a a roupa até aos joelhos.
A minha amiga obedeceu, avisou que já estava pronta e o trio aproximou-se.
– MD:
Se é prótese, é demasiado perfeita. Acho que é perna mesmo, e não prótese. Para mim, a perna voltou a crescer.
– ME:
Engano, caro colega; é prótese, está-se mesmo a ver. Este tipo de articulação é incompatível com a hipótese de perna verdadeira.
– PJ:
Uma vez que os colegas estão empatados, vou ter de exercer o voto de qualidade. Como Presidente, decido: é prótese. A perna continua amputada.
MA: Vou ter, também, de comprar um carro, adaptado para eu poder conduzir. Este atestado, que os senhores vão passar, não serve?
– PJ:
Nem por sombras!!! Vai ter de voltar à Junta Médica. Com os milagres que tem havido, nunca de sabe. Bem sei que não é fácil a perna voltar a crescer, mas não há nada como confirmar.
É manifesto que se trata de um diálogo absurdamente surrealista; julgo que nem o próprio Kafka se lembraria duma barbaridade destas.
Mas não chega a ser tão surrealista como submeter a sucessivas juntas médias uma cidadã, só para confirmar que tem (ou continua a ter) a perna amputada.

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