MONÓLOGO DE VIAGEM

Quando acontece ir de viagem em grupo – e isso vai acontecendo… – há um momento que, mais do que contemplar monumentos, percorrer avenidas e vielas, observar as atitudes dos indígenas e ouvir a lenga-lenga das ou dos guias turísticos, me fascina particularmente: é o momento em que, depois de deglutida a refeição, o turista portuga exibe a sua real capacidade intelectual sobre os normalmente sobrecarregados empregados dos restaurantes. Por outras palavras: é o momento sublime, único, arrebatador, onírico, quase orgástico-masturbatório, em que que o tuga pede café. Curto, comprido, cheio, italiano, sem espuma, descafeinado, chávena dupla, morno, chávena aquecida, chávena fria, mal cheio, com espuma, sem espuma, expresso, de saco, ‘nescafé’, com pouca espuma…
Imaginem, meus caros e pacientes leitores, uma cena destas em países evoluídos como Marrocos, Tunísia ou Egipto. Ou, até, em países que embora mais evoluídos estão, agora, a nascer (ou a renascer, não importa) para o turismo.
Claro que o portuga está-se borrifando para o assunto: há que mostrar
a sua superior intelectualidade aos aborígenes, que nós somos tesos mas somos evoluídos (média de TRÊS telemóveis por pessoa).
E, depois, a segunda parte do espectáculo em que o empregado – naturalmente! – vai distribuindo cafés, não conforme foram pedidos, mas como o instinto ou Deus Nosso Senhor (ou Allah, conforme os casos) aconselham, ou seja, à balda; ouvir as reclamações dos intelectualóides tugas é a componente imperdível deste (triste) espectáculo. Já imaginaram o que é, em plena Turquia, com a tradição do “café turco” (e os indígenas ofendem-se, se o recusarmos!), pedir um “expresso”? Pois esta prosopopeia vem a talhe de foice por causa de uma anedota que li numa revista de consultório médico (o que desde logo me levanta dúvidas quanto à sua novidade). Um portuga entra num café e pede, ao balcão: um café; mas curto, se faz favor.
O empregado que, provavelmente, já se encontrava farto de atender as mariquices idiotas dos clientes, apresentou-lhe um café dito “cheio”. Claro que o tuga teve de resmungar: Desculpe; pedi um café curto, e você traz-me um cheio.
Não há problema –
respondeu o empregado. – Beba o que quiser, e deixe o resto na chávena. Só paga o que beber.
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