JOELHO DE PORCO “VERSUS” JOELHO DE PORCA




A visita de estudo tinha, como objectivo, conhecer os caminhos de Camilo Castelo Branco e Miguel Torga. E foi para encontrar esses caminhos que nos deslocámos até terras do Alto-Douro.

Efectuadas que foram as primeiras visitas, eis que foi chegada a hora de dar de pôr os maxilares a trabalhar – e não era para conversa que se apresentava a trabalheira.

Em Vilarinho da Samardã, já em terras de Vila Real, existe um restaurante que nos sacia o corpo – e saciaria a alma, se ela existisse. Chama-se “Adega dos Passos Perdidos” e a refeição é, sempre, acompanhada por uma vista deslumbrante por sobre a paisagem alto-duriense. mais tarde, haveríamos de nos apaixonar por Santiago de Galafura. Mas são contas de outro rosário.

O grupo tinha chegado alegremente ao restaurante e, numa clara demonstração de que cultura e gastronomia não são incompatíveis – antes pelo contrário! – abria as hostilidades que tinham, naquele momento, as entradas como alvo.

E dava gosto vê-los atacando sem preconceitos a farinheira ou o miolo de broa frito, desviando depois para a orelheira, que se deixava acolitar por bem curtidas azeitonas, sem nunca perder de vista as fatias de gostoso queijo transmontano. Tudo acompanhado por uma pinga de ressurreição!

Eis senão quando um dos presentes levanta o magno problema, qual seja o de saber se o prato de resistência, que ia seguir-se, era, como rezava a ementa, “Joelho de Porca”. Isto porque a ninguém de bom senso passaria pela cabeça ir ao talho pedir 50 gramas de costeletas de porca! O habitual, curial, usual, corrente, normal, corriqueiro até, é pedir: “Ó Sr. Joaquim, arranje-me cinquenta gramas de costeletas de porco, tenrinhas, se faz favor”. E de duas uma: ou se tratava de erro de tipografia, ou – o que era mais grave! – estava-se perante uma forma encapotada de feminismo militante e fundamentalista.

O colega olhou atentamente em redor: todas as cadeiras estavam ocupadas, o que significava que não havia lugar para a dúvida. Por isso, antes que ela, abusivamente, se instalasse, o colega depositou-a calmamente nas mãos de Francisco Botelho. Este não hesitou: após uma rápida mas eficiente análise começou, lentamente, a desfazê-la.

Assim: nos meios rurais, a criação de gado rege-se por certas normas que têm, quase sempre, a ver com aspectos economicistas. Um macho é menos “produtivo” que a fêmea, por isso, e a menos que dele haja necessidade para procriar, o macho não chega à idade adulta. Daí que quando, no talho, se pede “bife de vitela”, o que nos dão é “bife de novilho”. Porque, como animal adulto, é a fêmea que há-de prover à nossa alimentação. E isto vale tanto para os bovídeos como para os artiodáctilos.

A dúvida não se vislumbrava mais, de tão desfeita que estava. O grupo pôde, enfim, deliciar-se com o joelho da falecida, e contemplar a deslumbrante paisagem que se estendia a perder de vista.

Adão pode ter sido expulso do Paraíso; mas não o destruiu. A nós, só nos resta encontrá-lo. Naquele dia, o Paraíso estava ali…

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