OS "GENÁRIOS"

26 08 2008

Dizem que “ler jornais é saber mais”. Ler jornais e ver televisão, já agora.
Pois bem, foi a ler jornais que eu descobri os genários.
Devo dizer que descobri os genários há alguns anos; mas a verdade é que nunca tive tempo para me dedicar ao estudo do fenómeno. Felizmente que, agora, que a aposentação sempre me vai deixando uns tempitos livres entre os diversos períodos de férias, pude, finalmente, debruçar-me sobre o assunto. Consultei diversa bibliografia (cuja descrição acabaria por ser maçadora para os eventuais leitores), entrevistei várias pessoas ligadas à ciência em geral, à antropologia em particular, e à cultura, em geral e no particular. Não tive ocasião de entrevistar nem a Lili Caneças nem a Paula Bobone, o que lamento, mas também não se pode ter tudo. O padre Borga vociferou por eu ter chegado tarde à missa e acabou por não me dar a entrevista.
Então decidi escrever um livro acerca dos genários; mas para não obrigar os leitores a gastar dinheiro na compra, para evitar a longa espera até que o livro seja editado (e nada garante que o vai ser nesta geração ou, sequer, neste século) e porque não quero que lhes falte nada, aqui vai uma epítome, necessariamente concisa, do estudo a que procedi.
Um genário é um homem. O que significa que uma genária é uma mulher. Mas, por uma questão de economia (homem leva cinco letras e mulher leva seis), vamos falar em genários, apenas, partindo-se do princípio que se aplica a ambos os sexos.
Pois bem, genário é uma classe humana. A partir dos vinte anos, e até finais dos noventa anos, o ser humano é genário. A partir dos cem anos, porém, passa a ser, apenas, nário. Os vários cientistas ainda não encontraram explicação para o fenómeno.
Os genários subdividem-se em categorias: vi, tri, quadri, quinqua, sexa, septua, octo e nona. Mas a verdade é que, se bem que todas as categorias existam, a comunicação social costuma dar relevo aos genários a partir da categoria sexa, ou sexagenários. Assim, é quase sempre um sexagenário que foi socorrido de urgência devido a um acesso de priapismo, um septuagenário que enviuvou após 15 dias de casamento com uma jovem, um genário da categoria octo, ou octogenário que vai requerer o subsídio de desemprego. Já os nários, que só têm uma categoria, os cente – por isso são chamados de cente-nários, ou, mais modernamente, centenários, só são referidos em casos excepcionais, não havendo registos da existência de nários da categoria bi-cente não confundir com Vicente, não tem nada a ver), ou bi-centenários. Pelo menos, a partir do Novo Testamento, já que no Velho era vulgar os homens serem multi-centenários (ignora-se quanto tempo duravam as mulheres, porque a Bíblia pura e simplesmente ignora as mulheres).
Mas a verdade é que há genários que são, sistematicamente, omitidos pela comunicação social: são os que têm menos de sessenta anos de idade. Não me recordo, por exemplo, de ter lido, ou visto, ou ouvido, que um quinquagenário teve um acidente, ou que um trigenário foi espoliado da sua pensão de reforma. Normalmente referem-se a um jovem de trinta anos, um homem de quarenta anos, um indivíduo aparentando cinquenta anos. Só a partir dos sessenta é que se adquire o direito de ser designado por genário, o que me parece correcto, dado o “tempo de serviço” entretanto percorrido.
Pela parte que me toca, pertenço à classe sexa. O que não é mau, embora me desse algum jeito a alteração da última vogal. Aguardo, ansiosamente, a passagem à categoria imediatamente superior – o que vai acontecer, em princípio, daqui a alguns anos.
Um abraço a todos os genários. E aos nários, também.





BRINCAMOS AOS BRINCOS?

25 08 2008


Tem vindo a vulgarizar-se a moda, cada vez mais frequente, de os papás modernos colocarem brincos (para não falar dos “piercings”) nos seus rebentos do sexo masculino – tal como nos do feminino, acrescento. Se, nas crianças fêmeas, a colocação de brincos é entendida como coisa natural, dado tratar-se de tradição enraizada não só em Portugal como em, praticamente, todo o mundo (ainda há quem diga que sem brincos a menina não está “completa”, seja lá isso o que for), o mesmo não se pode dizer da colocação de brincos em bebés machos. É, como acima disse, uma moda recente.
Perguntará o leitor: e o que tem a ver com isso? Os pais fazem o que quiserem, o filho é deles.
Pois é. Ou antes: não é.
Desde logo, se um papá decidir dar uma sapatada ao seu rebento, porque ele partiu um vidro quando estava a jogar a bola, ou se aproximou da água, na praia, quando estava a fazer a digestão, estamos perante uma situação de violência sobre menor. Só que o efeito da sapatada desaparece ao fim de algum tempo. Mas o mesmo não se pode dizer do furo praticado na orelha. Esse, é irreversível.
Há o estranho hábito de considerar a esposa e os filhos como propriedade do (ainda) chamado chefe de família. Mas a verdade é que as pessoas não são coisas, logo, não são propriedade de ninguém.
Que se inscreva o/a filho/a num clube de futebol, ou num partido político, ainda é capaz de ser admissível; a pessoa, logo que adquira a suficiente capacidade de raciocínio, muda de partido ou muda de clube.
Mas não me parece possível tapar o buraco da orelha, ou do “piercing”, ou mudar de religião.
Por exemplo.





O NORTE – por Miguel Esteves Cardoso

5 07 2008

O texto que se segue foi-me enviado, via correio electrónico, por um amigo. O Pereira. Por norma, a gente lê e reenvia – ou repassa, como dizem os brasileiros. Mas este texto é especial. Para mim, que sou do Norte (e, certamente, para todos os nortenhos). Não quero arriscar-me a que este delicioso naco de prosa seja eliminado numa qualquer – e necessária – limpeza de caixa de correio. Não. Esta delícia tem de permanecer. Tem de continuar a existir. Por isso o transcrevo para o meu/nosso blogue. Para que fique.
Obrigado, Pereira.
Obrigado, Miguel Esteves Cardoso.

Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro. Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela >entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente. No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas. O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso. As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o ‘O Norte’. Defendem o ‘Norte’ em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar. O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer ‘Portugal’ e ‘Portugueses’. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como ‘Norte’. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?’





"SABE MAIS QUE UM MIÚDO DE DEZ ANOS?"

10 11 2007

Carta enviada ao Provedor da RTP, acerca deste interessante concurso.

Sr. Provedor:

Vejo, invariavelmente, o concurso “Sabe mais que um miúdo de dez anos?” Acho-o utilíssimo, no seu aspecto didáctico, e transporta-me aos meus tempos de infância e juventude – para além de me permitir aprender bastante (eu também não sei mais que um miúdo de dez anos). Entendo, até, que o programa devia ser “puxado” para logo a seguir ao Telejornal, para permitir que um número mais alargado de jovens o visse. E ele deve ser visto!

Mas…

Precisamente pelo seu aspecto didáctico, e porque parece que há muitos jovens em idade escolar que o vêem, há que ter cuidado nas respostas a certas perguntas. Vamos a isso.

Dia 9 de Novembro, sexta-feira. A pergunta relacionava-se com símbolos que identificam marcas, produtos, entidades, etc. A resposta seria – deveria ser – LOGÓTIPO, de acordo com os dicionários que consultei (incluindo o “Ciberdúvidas”); no entanto, o concorrente não sabia, o aluno escreveu “logotipo”, o Jorge Gabriel leu – por várias vezes – “logotípo” (o acento é meu) e o concorrente aproveitou a ajuda. Mal. LOGÓTIPO é uma palavra proparoxítona (esdrúxula) e não paroxítona (grave).

Mesmo programa: a pergunta era: “de 1 a 20, quantos números são compostos pelo algarismo 1?” O concorrente fez rapidamente as contas: 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19. Contando pelos dedos, lestamente concluiu que eram 10. Errado. O jovem aluno “rectificou” 11, porque o 1 também conta. É um algarismo, e um número, simultaneamente. Resposta aceite pelo apresentador. ERRADO, acrescento eu. Porque o número 11 é composto por DOIS algarismos 1. Logo, a resposta seria 12, e não 11.

Cuidado, Sr. Provedor, é o que lhe peço para recomendar à produção do programa. Porque os jovens apreendem rápida e facilmente, principalmente se a fonte tiver o impacto que a televisão tem.

LOGÓTIPO, e não “logotipo”.

De 1 a 20 há 12 números compostos pelo algarismo 1, e não 11.

Atentamente,

José Moreira